90 Ceias

January 14, 2020

 

A peça 90 Ceias resgata a sabedoria. Essa sabedoria que é proporcionada pelas histórias familiares, que passam de geração em geração. Dessa forma somos levados a compreender o valor do tempo, que nesta peça, se torna um tesouro diante do público. Pois a celebração natalina é apresentada com um olhar místico que ronda uma família por anos. Essa atmosfera nos faz reconhecer encontros pessoais no decorrer da narrativa que nos coloca diante do humor e da nostalgia. Algumas vezes somos dominados pelo riso e outras vezes pela lembrança, essas que despertam uma imersão no público, pois quando vimos estamos interagindo com tanta fidelidade e vivendo as emoções dessa família, que também é parte nossa. E toda essa sinergia se resulta na mistura que acontece na cena.

 

A delicadeza desse projeto se encontra na construção da dramaturgia que parte de narrativas do grupo, que se mesclam com o texto “The Long Christmas Dinner de Thorton Wilder” e das interferências das colaborações do Laboratório de Criação. Encontros que giram em torno de uma roda de narrativas, que nos presentearam com momentos especiais. Pois não a uma pessoa que não tenha um bom relato de natal para contar. Essa energia se torna a referência da obra, que traz em cena três gerações de uma mesma família durante o ritual natalino. Em meio a troca de presentes, fatos reais da história do Brasil exibidos na televisão e a trilha sonora composta por sucesso nacionais costuram as décadas apresentadas no espetáculo. Os momentos encenados são ricos nos detalhes que nos leva ao universo da vida, do sentido, do calor e do sopro dessa celebração.

 

Tudo isso se torna verdade nas mãos de Carina Corá, que assina a dramaturgia final da peça e Vitória Titton nós mostra o quanto sua observação para dirigir a peça é majestosa. Pois tratar da temática natalina e não se deixar levar pela persistências do clichê que ronda essa data, nos leva a perceber que a diretora Titton, tem um olhar sensível a resgatar o misticismo da celebração natalina e nos envolver com cada nova geração da família. Essas gerações que são encenados por um grupo de atores - Bruna Casali, Eriam Schoenardie, Lauro Fagundes, Marina Fervenza e Maurício Schneider - que revezam os personagens de geração a geração. Essa metamorfose que acontece em cena, nos leva ao encontro da admiração do ofício do ator. Pois todo o elenco consegue se manter num nível admirável da construção dos personagens. Que a cada novo encontro com o público, somos presenteados pela surpresa e recordamos de cada personagem, com sua especificidade e características, sem associações particulares de cada um.

 

Outro ponto que se torna relevante citar é como o tempo é abordado nesta peça. O tempo é como o “senhor”, o “caminho”, o condutor dessa família, dessa história e dos nossas vidas. Ele é construído com cuidado, pois as pitadas do cronômetro para a história, se torna certeiro. Algo admirável nisso é que o tempo passa para todos. A cada nova década, novos costumes e modos de celebrar aparecem, mas a essência é a mesma desde o início, desta família. A única coisa que se conserva entre toda linha do tempo é a personagem do Maurício Schneider, que brilhantemente, soube dar um toque especial na construção dela. Como se entendesse do tempo, Schneider, traz a graciosidade necessária, que só o tempo têm. Ele se coloca como observador e acolhedor dessa família. Tentar estar em volta de todos e dá suporte quando é necessário. Este zelo por cada um da família se torna o abraço essencial, o sorriso ou a gargalhada desperta, o amor eterno e o cuidado especial.

 

90 Ceias consegue nos levar ao encontro da magia do Natal. Trás um olhar do tempo para a celebração que move famílias, estas que às vezes não precisa de sangue, mas de alma. E ainda nos presenteia com as histórias que cercam geração a geração e nos levam a entender o poder da tradição, que pode nos abençoar ou amaldiçoar.

 

Fotos: Adriana Marchiori e Qex Bittencourt

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