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Em Chamas

December 10, 2019

 

 

A peça Em Chamas recebe o público com os atores em cena fazendo a meditação do coração. Para algumas pessoas é só movimentos que se juntam no compasso, para outros se torna uma eternidade, mas para poucos é um encontro. Um encontro com o momento. Este momento de estar em repouso diante de quatro atores que conectados estão a movimentar-se. Esse exercício de apreciação é para poucos, só acontece para quem está por inteiro. Assim é a proposta do espetáculo, estar por inteiro. A plateia é convidada a mergulhar nas entranhas e entrelinhas de uma dramaturgia complexa, só que cheia de verdades. Essas verdades que tem haver com o ser humano e seus anseios, esses anseios que os levam a escolher caminhos que explicam a nossa atualidade.

 

Somos levados a conhecer quatro monólogos fabulosos que apresentam as raízes do coração do ser humano. Esses monólogos lembram aquelas bonecas Matrióchka, que se encaixam uma dentro da outra. E assim são essas histórias uma dentro da outra, uma surpresa a cada novo monólogo que te leva para uma  profunda análise. Vimos Lauro Fagundes trazer em suas insanas palavras resquícios de humanidade. Gabriela Greco relembra a ilusão que permeia sobre nossas mentes e o quanto acreditamos nesse universo irreal que nos cerca. Luiz Manoel consegue despertar a loucura que todos carregamos e mostrar que tudo não passa de um jogo. Denizeli Cardoso trás a beleza mística que reina em nossos corpos e que se materializa em palavras nas nossas vidas. Todos diálogos são carregados de informações que levam algumas pessoas a uma imersão profunda e um reconhecimento único. 

 

Pela primeira vez vi em cena um texto que traz os dias de hoje sem panfletar a atualidade através de política, e sim do ser humano. Não podemos negar que a questionamentos políticos e ideológicos neste enredo, mas todos eles partem do ser humano, das nossas ações, como um todo, como população, povo. Não se coloca a culpa num determinado local, grupo de pessoas ou uma simples ação. Nos leva a entender a abrangência das coisas, um textos que quase se mistura com antigos mitos gregos, pela universalidade que existe nas suas palavras.      

 

Para quem não sabe Em Chamas é a estreia da autora indiana Manjula Padmanabhan. Seus personagens se baseiam na revolta, na dor e no medo. E de uma forma encantadora o diretor Matheus Melchionna, consegue pegar a essência que existe nas entrelinhas dessa peça e nos proporcionar um espetáculo genuíno, delicado e profundo. A peça tem uma carga extensa, que se torna necessária para imersão sobre os assuntos colocados, que exige do público uma atenção e presença. 

 

Esta presença que muitas vezes não faz parte do cotidiano do público que se surpreende com essa proposta e alguns não conseguem ir nas profundezas do espetáculo. Isso não se tornando um defeito, mas um acerto se olharmos com generosidade para a plateia que está em diferentes níveis e compreensão da proposta. Isso se chama humanidade. E se reparar e observar o que a cena está colocando é a mesma coisa, um reflexo único e especial. Outro ponto interessante desta peça é perceber que o poder está na voz, na palavra. Ela que conduz toda atmosfera do início ao fim. A palavra brota da verdade que se cria nos atores que produz uma cena com poucos movimentos, mas se observar nos detalhes, irá se surpreender quando tiver a compreensão da narrativa.  

 

E essa palavra ativa nossa audição que abraça nosso corpo e nos leva para as profundezas. Isso se dá pelo fato dos atores entenderem que suas vozes são essenciais e dali parte a criação das suas personagens. E esta fala é mostrada pelo corpo, pelo rosto, em cada gesto. Os gestos e movimentos que nos surpreende pelo seu tempo que flui juntamente com a trilha sonora. Se estiver atento irá perceber que muitos gestos acabam ganhando sonoridades peculiares que ajudam engrandecer a cena. E estes movimentos e sons se misturam com a luz e os figurinos deslumbrantes. Mas nada disso se destaca sem a entrega dos atores.

 

Vimos atores orgânicos que de fato querem estar em cena e necessitam disso para viver. Nenhum deles passam despercebidos em seus monólogos que ganham identidades particulares e ao mesmo tempo conseguem criar uma linha linear para toda narrativa do início ao fim. Lauro Fagundes se torna mitológico nesta peça. Somos surpreendidos pela sua maturidade em cena e sua transformação. Fagundes permite que sua arte se ilumine nos palcos e nos leva a presenciar um dos momentos mais digno do teatro gaúcho. Gabriela Greco reafirma um pacto com os palcos e se torna grande diante da atualidade e consegue se destacar imensamente. Luiz Manoel é a grande surpresa do Em Chamas ao construir uma personagem de outro mundo e brilhantemente nos levar ao encontro da loucura. Denizeli Cardoso deslumbra a sua luz e mostra o quando o poder está no simples fato de acredita na palavra e diante da sua atuação estamos frente a frente com o “homem místico”. 

 

Tudo isso só se manifesta nesta potência devido a sensibilidade que habita no coração de Matheus Melchionna. Melchionna já tens uma identidade única para direção que sempre é carregada de verdades e essências. Essas que sobressaem nas entrelinhas e transformam suas peças em projetos peculiares para o Brasil. Não foi atoa que ele descobriu esse texto profundo e cheio de amorosidade para trazer a luz de uma nação que se sente perdida e carente do reencontro pessoal. 

 

Em Chamas, fecha com chave de ouro as estreias de 2019 no teatro gaúcho, mostrando o quanto a qualidade cultura do sul é potente e especial. Que essa possa ver o início de uma caminhada nacional para um projeto peculiar e que merece irrigar os territórios nacionais. 

 

Foto: Sofia Wolff

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