Peccátu

October 21, 2019

 

Um dos motivos de gostar do teatro são os inúmeros espetáculos musicais que existem espalhados pelo Brasil. Desde sempre me vi apreciando esta vertente do teatro e a cada novo encontro percebo o quanto o teatro musical está exigindo atores, cantores e músicos de qualidade. O destaque é tanto que atualmente encontramos artistas completos e disciplinados nessa categoria. Nunca deixo de ver projetos de escolas, grupos e companhias de teatro. Pois nesses projetos se encontram profissionais incríveis e espetáculos memoráveis. Com esse desejo de abraçar o teatro musical fui assistir Peccátu e para minha surpresa descobri um projeto onde se destaca a simplicidade. Já escutaram que "menos é mais", este seria um bom conceito para Peccátu que se engrandece nos detalhes. Um espetáculo musical que é construindo pela força da banda que consegue abraçar a poesia cênica que existe no palco e se eleva com a movimentação dos corpos.  

 

São projetos que nem Peccátu que relembro o quanto o palco busca artistas “puros”. O jogo cênico entre palco e platéia se torna o momento de prazer e satisfação, aonde se encontra a entrega e a ação. O que me despertou essa meditação, foi ao ver os atores e cantores (Diego Freitas, Ighor Pozzer, João Xavier, Leticia Kleemann, Roberta Turski e Tom Weissheimer) que se movimentavam de um lado para o outro no palco. Em muitos momentos esses artistas estavam sendo o coro, os bailarinos, os coadjuvantes do espetáculo. É nítido que para a maioria deles o palco é novidade, mas a essência já habitava em todos. Neste elenco se encontra profissionais de outras áreas do conhecimento, nem todos estão ligados a cultura, muitos deles estão fazem parte da CIA de Teatro Musical Ernani Poeta. Com direção musical de Alexandre Alles e estudo corporal do coreografo João Lima, o elenco ganhou destaque neste projeto, devido à direção, que soube ter coerência de levar esses artistas ao palco.

 

O zelo com esses artistas é de uma extrema delicadeza, que me perdi admirar as suas ações no palco. Esse cuidado se estendeu para a banda – Carol Kopacek (Guitarra), Fabio Petry (Baterista), Flávio Francisco (Baixo acústico e elétrico), Marcelle Lucena (Teclado), Ricardo Lannes (Percussão e Sonoplastia), Talita Tomazo (Violoncelo), e Matheus Lima (Guitarra) - que junto do cenário se transforma a cada nova trilha e composição. A banda não se coloca só como instrumentistas, eles se tornam personagens da narrativa e muitas vezes juntam-se no movimento central e se unem para compor uma poesia. Talvez essa manifestação sobressai a minha observação, pois percebe-se uma inocência dos artistas. Essa inocência que não se torna imatura, mas pura diante do palco e que ressalta a grandeza de suas ações.

 

Os detalhes são tantos que o cenário chega a ser um presente para contemplar. Inicialmente achei que a saia que estava no Eric Nelsis se estendem-se sobre todo palco. Logo vi que o tecido que cobria o palco era um e o da saia dele era outro. Este tecido vermelho se junta com correntes e cordas, penduradas sobre o palco, produzindo uma admiração hostil. Os corpos dos atores me misturaram a esse movimento do tecido e das cordas que te levam observar esta belíssima composição. Este contexto é provocante a ponto de poucas vezes repousar no personagem que Eric Nelsis estava dando vida, logo que tentava permanecer conectado com ele, me pegada deslumbrado pelos arredores. Eric é dono de uma voz peculiar, muitas vezes se perde ao som da banda, e os momentos de declamação e manifestação baseadas no ateísmo de Marques de Sade, somem pelo ar. Acredito que o foco desse projeto não está na atuação e sim as canções.

 

A simplicidade se torna o conceito mais amplo para este projeto que fecha com chave de ouro a sua composição. A narrativa vai se desdobrando com a persona de um ser, que preso por correntes, trás reflexões que quase se tornam um deboche sobre seu olhar perante ao universo e suas “punições”. O personagem que é interpretado primeiramente por Eric Nelsis, sai de cena e quem toma seu posto é o ator e cantor João Xavier que leva a um encontro com a genuinidade que desperta um brilho no olhar. Simplesmente somos arrebatados pelos momentos sinais onde ele trás suas reflexões, e cada ação, palavra ou desejo, se mistura com os movimentos do seu corpo e sua respiração. O sentimento toma conta de Xavier que nos leva ao encontro desse homem e de suas colocações. Brilhantemente ele consegue jogar muito bem com sua companheira de cena Letícia Kleemann e juntos protagonizar um belo desfecho da narrativa.

 

Peccátu mostra que não precisa de muito para se fazer teatro, bastar ter o desejo de fazer aquilo que da sentido a vida. Dessa vida a inúmeras reflexões, que podem se manifestar de diversas formas. O espetáculo se torna peculiar pela escolha da abordagem e da temática, sendo um destaque para a cidade de Porto Alegre. Que essa inocência sobre o palco possa trazer novos ares para tantos artistas que ainda buscam sua expressão.  

 

Foto: Rodrigo Bragaglia

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