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Festival de Teatro para Crianças – Festecri

October 16, 2019

 

 

Em meio a tantas falas de desordem e depreciativas, surge como uma nova fonte de inspiração ao teatro gaúcho o Festival de Teatro para Crianças – Festecri. Numa semana onde se exalta o consumo exacerbado de presentes para comemorar o dia das crianças, somos surpreendidos com essa proposta que prioriza alimentar a alma dos pequenos. O Theatro São Pedro recebe inúmeras filas e filas de crianças, famílias e apreciadores do teatro, para juntos prestigiarem uma programação voltada para as crianças num dos maiores teatros do Porto Alegre. Com um cuidado peculiar, a programação do Festecri, trás peças de qualidades que dialogam com esse universo infantil e possam ainda engrandecer o teatro e marcar a vida de todos.

 

Tive o prazer e a honra de presenciar esse momento importante e marcante para o teatro gaúcho. Acompanhei três dias do festival, o primeiro dia escutei a fala do Antonio Hohlfeldt. O professor Hohlfeldt trás com amorosidade a Dramaturgia infantil no Brasil, numa conversa de duas horas, somos agraciados pelo um olhar breve da história do teatro para crianças. As palavras de Antonio Hohlfeldt são como instrumento de motivação a estar imergindo nesse contexto e querer desbravar mais e mais sobre esses caminhos que estão sendo construídos com tanta sabedoria no território nacional. Escutar suas colocações é perceber o quanto um conhecedor da literatura e do teatro se coloca como instrumento para trazer átona a arte e sua história. Belíssimo ver o amor de Hohlfeldt ao colocar tantos autores, grupos e espetáculos que ele conheceu nesta caminhando do teatro para crianças.

 

Esse mesmo amor ao teatro para crianças fluía no palco, prestigiei duas peças. Na quinta-feira assisti O Enigma das Caixas com direção de Paulo Guerra e dramaturgia de Elô Fernandes e Helô Bacichette, que brincam com as palavras e transformam a cidade de Caxias do Sul, na cidade de Caixinhas do Sul. Trazendo assim, os segredos que uma caixa pode ter e nos levando a conhecer umas das histórias mitológicas mais deslumbrantes dos últimos tempos. Na sexta-feira assisti Expedição Monstro da Cia Indeterminada, com direção de Matheus Melchionna e um elenco que sabe despertar a alma das crianças e criar um universo especial que contagia até os “maiores”.

 

E assim o Theatro São Pedro vai ganhando um ar diferente, todos os dias estudantes do ensino fundamental da rede pública municipal e estadual lotavam cada canto do teatro. Para grande parte dessas crianças eram sua primeira vez dentro do Theatro São Pedro e talvez sua primeira vez assistindo uma peça de teatro. A admiração com cada detalhe do teatro não passava despercebida pelos olhos curiosos e atentos das crianças, que se encantavam com o lugar e queriam registrar cada momento. O mais intrigante era perceber que não era só as crianças que estavam conhecendo esse local, mas também algumas professoras estavam entregues a esse encanto. Na sexta-feira uma professora ao comando do palhaço Serragem aquecia as palmas e gritos de "Bravo" com uma empolgação que deixava algumas crianças invejadas da euforia que ela tinha. Esse amor pela arte se ampliou com todos de uma forma acolhedora que o festival conseguiu trazer a este público que se sentia parte do Theatro São Pedro.

 

Pois eles foram convidados a estarem ali, e sem perceber eles – as crianças – eram os protagonistas desse projeto. As peças eram secundárias, se olharmos que o Festecri era feito para o público. Claro que todas as peças tem seus momentos de glorias, pois se não fosse suas narrativas e atuações especiais para este público, não haveria uma energia diferente rodando o teatro. Para quem estava atendo percebeu que o Theatro São Pedro ganhou uma alma inocente com tantas manifestações dos pequenos quando se deparavam com a chegada de um personagem e queria avisar os outros que estavam em cena. Ou suas risadas ao se depararem com algo engraçado. Ou o silencio nos momentos de escutar e meditar as lindas palavras que vinham das histórias. Ou até aqueles momentos de interação aonde todos queriam ser ouvidos pelos personagens que estavam ali pronto para escutá-los.

 

Além de perceber essa conexão entre público e narrativa se compreende que a importância desse Festival de Teatro para Crianças é uma forma de criar uma cultura de uma nova plateia. Trazer uma geração que pode entender e compreender que o teatro não está distante das suas vidas e que pode entrar no cotidiano de todos. Sem contar que algumas daquelas crianças, podem ter sido picada pelo “bichinho” do teatro, e querem no futuro serem atores e atrizes, diretores e diretoras, dramaturgos, figurinistas, cenógrafos e afins. Pelo fato das peças trazerem uma delicadeza em seus detalhes e mostrar para as crianças quantas camadas que tem a produção e narrativas apresentadas no palco.

 

Um acerto de Leticia Vieira e Michele Mastalir de conceberem e coordenar esse Festival que abriu um novo momento para os artistas gaúcho. Com curadoria de Dilmar Messias houve um reconhecimento de projetos significativos nestes dias de Festecri que souberam valorizar também produções de grandes portes e qualidades no teatro para crianças. Que esse projeto não possa só reinar nos seus corações, mas que possa ser abraçado e agraciado pela cidade de Porto Alegre que deve manter viva esse projeto que alimenta alma de crianças e transforma suas vidas.  

 

 

 

Design Gráfico: UOU Design

Fotos: Tom Peres 

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