Lobo

September 27, 2019

 

 

Quando soube que o espetáculo Lobo estaria na programação do 26º Porto Alegre em Cena fiquei emocionado. Há quase um ano atrás tive a oportunidade de estar conhecendo esse projeto que nasceu da observação de Carolina Bianchi. Sua pesquisa ao abordar a manifestação do teatro e a sua posição social é surreal para os tempos atuais. Pois somos levados a embarcar numa peça onde o enredo não se torna uma narrativa que tenta contar algo ao seu público, mas ela trás uma peça para sentirmos, degustarmos e meditarmos. Lobo se torna um resgate do homem com a sua origem, trazendo para a cena uma semelhança com os primeiros rituais que se misturam com misticismos e nos levam a perceber o ser humano como corpo, mente, alma, energia e natureza. Esta atmosfera chega à cena através do teatro, dança, música, literatura e artes visuais.

 

Essa simplicidade que existe ao redor de Lobo é o que o torna grandioso aos olhos de quem vê. Pois a peça te leva a vivenciar cada cena, não a como fugir da apreciação de cada momento. Como se as cenas fossem obras de artes, somos levados a permanecer o olhar fixo em cada momento e degustar de cada detalhe apresentado no palco. Esse exercício de observação, onde você se vê sendo provocado pelos cinco sentidos é novo para muitos, que se esquecem de compreender essas manifestações no seu dia a dia. Por isso, que no decorrer do espetáculo se ouvia na platéia risadas do reconhecimento com o corpo nu e sua forma de se expressar, essas risadas muitas vezes eram de nervoso ao ver o corpo do outro numa posição natural do homem.

 

O incomodo presente na obra não é negativo e sim positivo, o espetáculo nos obriga a observar cenas com partituras longas para termos esse momento de observação, onde nosso olhar repousa no diálogo. Este tempo que para alguns se tornava uma eternidade e para outros se tornava um deslumbrante. Quem conseguia se deter as manifestações compreendia as camadas existente em cada cena, essas que são banhadas pelo amor, amor a si, ao outro e ao tudo. Os atores em uma cena se banhavam no próprio suar, em outra cena, recebiam a saliva do colega e entregavam para o próximo, ou ainda, em outro momento existia o toque no próprio corpo de inúmeras formas e depois esse corpo a corpo virava coletivo. Também a construção do amor que se dissolvem em todas as cenas, o questionamento do conceito do amor construído pelo homem, amor em forma de literatura e sua obsessão pela própria criação.

 

No espetáculo Lobo, é possível encontrar uma experiência contemporânea que explora o teatro, dança, música, artes visuais e performances de diversas formatos. Um espetáculo que conseguiu manter-se conectado com uma proposta única de explorar o ator e suas ramificações, dessa forma trazendo como pano de fundo temáticas que se misturam com imagens, referências de fábulas de terror, natureza morta e outros. Lobo trás para a cena a diversidade humana, pois havia homens de alturas e tons de pele diversas, alguns tinham pelos pelo corpo, barba, bigode, outros eram lisos, cabeludos, carecas, gordinhos, magros, variações de genética. De semelhante havia respiração, cansaço , suor, o amor pela obra e pelo outro. Como uma dança, os rapazes vão explorando o seu corpo que ganhava sons, movimentações, diálogo e provocações. 

 

E está proposta se torna transformadora para quem vê e participa. Pois no palco se encontram atores que estudam uma construção da personagem a partir do corpo e sua manifestação. Esta entrega leva a um novo olhar para o diálogo criado na cena e a forma que se comunica com o público. Percebe-se que quem se envolveu neste projeto é por que acredita e ama o ofício do ator como manifestação através do corpo, assim lembrando e resgatado a origem da arte, que eram aqueles momentos ao redor da fogueira e seus rituais. Também lembrando o homem como o centro da arte e com animal ao compreendemos suas reações no habitat e a vivencia do coletivo. Belíssimo ao ver que o elenco é composto por atores que fazem parte do elenco original e que mescla com atores residentes em Porto Alegre. Houve uma oficina que inseriu atores portalegrense a vivenciar essa proposta e entender de outra forma o jogo cênico.

 

E toda essa delicadeza que vive ao redor de Lobo chegou até aos olhos do 26º Porto Alegre em Cena que juntamente com o Theatro São Pedro levou está obra para dentro do teatro. Compreendemos que Lobo se tornou um marco para o público do Theatro São Pedro, ao verem que esses corpos dialogando com estrutura do teatro e ali deixando suas marcas e impressões e provocações. Para muitos esta obra se torna épica dentro do Theatro São Pedro, para outros é só a confirmação que o Theatro compreende a sua forma de abraçar todas as manifestações artística e o quanto acredita nelas. Esse cuidado vindo do festival e do Theatro São Pedro é um presente para a cidade de Porto Alegre ao abrir as portas para Lobo.

 

E dessa forma Lobo mostra  que o teatro é corpo. O corpo desnudo sem camuflagem. Cru o corpo se manifesta para provocar diálogo e encontros. Esses encontros que se dão dentro da mente de cada observador. Pois a mente é corpo. Essas observações que se tornam provocações, sensações e degustações. Cada qual abraça uma camada dos questionamentos pessoais de cada um e nos levam a experienciar sensações únicas ao observar a poética do corpo em cena. O corpo é manifesto, é amor, é dialogo, é incomodo. E do corpo teatral refletimos sobre o corpo "casual" e assim se faz teatro e transformação. 

 

Foto: Mayara Azzi

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