A Mulher Arrastada

September 17, 2019

 

A peça A Mulher Arrastada resgata o diálogo entre a vida e arte. O teatro tem a responsabilidade de levar para a cena o reflexo do caminho do ser humano. Quando esse fluir entre realidade e alma se encontram, surge na cena uma transformação. E esse encontro ganha outro nome neste espetáculo – renascer - que reúne a sensibilidade de Diones Camargo, a voz e força de Celina Alcântara e a observação de Adriane Mottola. Esse flui ganha uma dimensão que tornar o teatro vivo e próximo do público, que se envolve a partir de uma obra que retrata os fatos da realidade, mas utiliza-se da essência para transformar quem o aprecia.

 

Não é a primeira vez que um fato, uma noticia nacional ou mundial se torna subsídio para o teatro. O dramaturgo Diones Camargo nos surpreende com sua sensibilidade de imergir num fato desumano e incabível e dele escrever palavras vivas e com alma. Pois encontra-se um estudo de cada palavra, existe um cuidado de não ser romantizadas e nem de esconder os fatos, só de ser real e direta. A transparência que existe neste roteiro se torna humana, assim levando o público a um encontro com a emoção ao estar diante de uma narrativa que abraça a todos. Pois ao mesmo tempo em que estamos diante da história de Cláudia Silva Ferreira, mulher negra, pobre, 38 anos, auxiliar de limpeza, mãe de quatro filhos biológicos e quatro adotivos. Vimos diante de nos um ser humano na sua jornada e que fala com todos, num tom de clamor pela nossa visão de mundo e do outro. Diones Camargo se apropria de uma história de uma mulher negra para criar uma peça épica e transformá-la num texto universal, que pode ser representado em qualquer canto do mundo e todos irão se identificar.

 

Esse zelo com essa escrita é belíssima que acaba despertando na atriz Celina Alcântara um encontro com a essência do oficio de atriz. Alcântara torna seu corpo e sua voz um manifesto pela arte ao dar vida à personagem que se mistura com sua trajetória. Claramente escutamos no poder da sua voz o verbo preso na sua garganta, que se mistura com o grito de clamor de Cláudia Silva Ferreira. O corpo da atriz se encontra deitado em cima de uma maca de metal, não a necessita de nem um gesto dramático, Celina abre os olhos e solta a voz. Basta esse único movimento da atriz para perceber que Alcântara não cria a personagem, ela sente. A força da sua voz é usada para contar essa história, aos poucos essa voz vai abraçando o teatro e envolvendo a todos que estão apreciando a sua atuação. Na voz a resquícios da dor e injustiça, que se torna eco dentro de cada um, não a como não se emocionar. A sua história é contada com tanta verdade, sentimento, que aos poucos todos se banham com as lágrimas. Essas lágrimas que não são de comoção, mas de um encontro com o real fato de um ser humano ter sua vida brutalmente interrompida. Celina Alcântara humaniza sua personagem com delicadeza que somos levados a encontrar todos os seres nesta atuação.

 

Conduzida pela observação da diretora Adriane Mottola, vimos que o corpo é o instrumento de diálogo da personagem. A todo o momento percebemos as citações se compor com gestos que apontam o próprio corpo da atriz. Um corpo humano, frágil, mas necessário para viver, trabalhar e socializar. Mas no decorrer do espetáculo o corpo que é particular se torna imenso, vai ganhando o espaço em torno do teatro e envolvendo a todos, como se juntos tornássemos um só corpo. Mottola nos leva a um determinado momento a não admirar mais aquele corpo que se sofreu um abuso de poder, mas fazer parte desse corpo. Isso acontece devido ao jogo cênico ultrapassar as barreiras da técnica teatral e se tornar orgânico. Como falei anteriormente, a atriz Alcântara, mostra que sente essa personagem e sua dor. Este sentir se torna visível é único. Mesmo o espetáculo permitindo esse diálogo universal, conseguimos compreender a barbaridade feita com essa mulher que é “avaliada” por sua cor, sua classe, sua posição. Esses temas são abordados com respeito e delicadeza, aonde não se firma uma bandeira do certo ou errado, mas aonde se constrói uma provocação interna no público que sai transformado no final da peça. Neste instante inicia uma escolha de ter uma postura diferente no mundo e com o outro.

 

O ator Pedro Nambuco aceita dar vida a um policial que pelas mãos do dramaturgo, trás outro olhar da situação. A coragem de encarar esse personagem é imensa, pois Nambuco mostra que está trazendo para a cena este homem, para que todos possam perceber, a ignorância que existe em algumas pessoas. Mesmo sendo o vilão da narrativa, nunca será comentado como outros vilões do teatro, cinema e televisão. Pois a sua frieza é tão próxima com a que habita dentro de cada um, que temos vergonha de observar esse personagem que fica a espreita do público. Sabemos que se o encarar teremos que reconhecer o pior que existe dentro de nós.

 

Através da voz e sensibilidade, dos fatos e observações, somos levados a uma narrativa que clama por construir uma nova nação. Uma história que se transforma nas mãos de artistas para assim tentarem abrir os olhos da alma brasileira e de uma vez por toda mostrar a diferença que existe quando o poder está a frente da humanidade. Vimos o desrespeito com uma mulher negra, pobre, 38 anos, auxiliar de limpeza, mãe de quatro filhos biológicos e quatro adotivos que nos tira da zona de conforto, mas nos transforma como cidadão. Todos que estão envolvidos neste projeto compreender o conceito de arte e a sua provocação no mundo, pois conseguem dar vida a um espetáculo que tem a base da transformação atraves do diálogo.  

 

Foto: Sabrina Marthendal

 

 

Please reload

Our Recent Posts

90 Ceias

January 14, 2020

Em Chamas

December 10, 2019

Festive

December 5, 2019

1/1
Please reload

Tags

Please reload

 

©2018 by Crítica e Diálogo. Proudly created with Wix.com