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2068

September 13, 2019

 

O ser humano sempre sentiu a necessidade de dialogar com o seu tempo. A arte se manifesta com a intenção de trazer a relação do homem com o mundo. Alguns artistas conseguem fazer esse diálogo com maestria, já outras buscam dentro de si a conversa mais profunda e detalhada para se fazer arte. O grupo Máscara EnCena caminha para um encontro próprio, ao produzir arte com identidade e consistência. 2068 é um espetáculo que consegue despertar no público a observação e reflexão da atualidade através da composição poética apresentada em cena. Essa escolha de utilizar máscaras expressivas e o manuseio de bonecos onde a narrativa se torna visual propõe um encontro pessoal com a leitura de cada um. E por meio dessa provocação voraz vimos um espetáculo consistente que produz de fato, uma mudança no público, que se encontra num despertar a partir da cena proposta. 

2068 é tão impactante que a escolha de usar os gestos e movimentos já coloca o público em outra zona de observação. Somos levados a ver personagens que ganham sentimentos, alma e vida, através de uma técnica que se torna delicada nas mãos dos atores. Alexandre Borin, Camila Vergara, Fábio Cuelli e Mariana Rosa emprestam seus gestos, movimentos, ritmo e respiração para compor oito personagens. O que acontecem em cena permite uma análise tão ampla que acaba mexendo com pontos particulares de cada um. Assim embarcamos numa proposta que mexe com o imaginário adulto. Pois o espetáculo tem a intenção de provocar no público o estimulo da consciência que fica sobre o real e o imaginário.

 

A estética da peça é simplesmente arrebatadora, mas ela só ganha essa força pela sua execução que é impecável. Não pense que estou falando em acertos técnicos, estou me referindo à dedicação de construírem no imaginário do público a certeza que existe vida na cena. O manuseio dos bonecos é detalhadamente cuidadosa que passa despercebida aos nossos olhos a técnica da manipulação e assim acreditamos que estamos vendo um ser vivo. Recebemos estímulos que se misturam com movimentos e gestos que depende da trilha sonora e iluminação para compor a cena, que nos leva a criar narrativas a partir da provocação proposta.

 

2068 permitem essa criação a partir de cada momento apresentado, sua preocupação não é numa narrativa linear, mas cenas peculiares. Existe uma cena central que as personagens estão restritas a viver e conviver enclausurados, esse momento retorna inúmeras vezes. Mas aos poucos a um respiro para o público quando esses personagens “desprendem” dessa prisão e revivem lembranças carregadas de sonhos e esperança. A diretora Liane Venturella junto com o elenco soube respeitosamente tratar de assuntos da atualidade de uma forma convidativa, poética e comovente, que beira a uma composição de fábula.

 

Somos arrebatados a ficar conectados num espetáculo onde o recurso é visual e a imersão do público é surpreendente. O fluir da cena é tão impactante que se escuta entre as poltronas, choros doces ao reconhecer essa prisão que o homem está. Pois o espetáculo 2068 não está tratando de política, mas está se referindo as escolhas. Produzir essa peça é dar um respiro para os seres humanos que estão focados nas ilusões sociais e buscando uma realização descomunal. O espetáculo mostra a benevolência existencial que ainda aquece nossos corpos, mas que em situações singelas resgatam essa harmonia entre a verdade e a essência. Se observar a divulgação da peça, irar perceber que eles nos questionam se “ainda é possível sonhar?”

 

A resposta se encontra na cena e na reação das pessoas. Vi no Teatro do Instituto Ling homens e mulheres se permitindo a voltar a sonhar diante da beleza que apreciavam. Mesmo sabendo que estávamos num teatro e que diante de nos havia máscaras produzidas e fabricadas, e que os personagens são bonecos manipulados, podemos imaginar e acreditar no que se passava diante dos nossos olhos. Quando os personagens tinham suas lembranças e sonhos, também existiam cores na cena, leveza no ar, esperança da vida. Esses momentos são tão importantes, quando a cena central, pois estamos acostumados e aceitamos viver presos e domesticados. Mas sonhar? Isso nunca foi bem aceito. Talvez por isso que particularmente afirmamos tantas regras e punições que é mais fácil nos colocarmos numa vida pequena, onde só se pode viver em um determinado espaço e com medo de tudo.

 

O mais belo nisso tudo é que me meio a tantos gritos, manifestações, opiniões e discussões, encontramos uma obra disposta a dialogar e a provocar transformação. Fazia tempo que estamos esperando uma peça que pudesse de fato respeitosamente conversar com o homem e levá-lo a uma meditação consistente e marcante. Acredito que 2068 será memorável por inúmeros elementos, mas talvez por existir tanta vida e verdade num palco que chega impressionar a todos. Nunca se viu uma mentira ser tão viva nas mãos de artistas nos tempos de hoje.

 

Foto: Fabrício Simões  

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