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Arena Selvagem

August 27, 2019

 

Arena Selvagem foi uma das peças que estava na minha lista para prestigiar. Quando recebi o convite prontamente foi assistir ao espetáculo e houve dois fatos surpreendentes. O primeiro de compreender a grandeza do Grupo Cerco, que em todos esses anos, construiu um público fiel e que acompanha os seus trabalhos. E o segundo e estar diante de um espetáculo que beira a uma dramaturgia didática. A proposta se constrói em dados e informações existentes e que são ilustradas em pequenos recortes e cenas. No decorrer da peça percebo que esta estrutura se mantém viva até o fim, sem uma provocação cênica.

 

É visível no palco a construção em grupo e do grupo. Percebe-se que existe uma construção de todos, mesmo existindo a direção de Inês Marocco. Só que a essência e raiz do Grupo Cerco é viva, e presente em seus trabalhos. O espetáculo Arena Selvagem tem como norte o recorte de inúmeros textos, que são explorados de diversas maneiras na cena. Esses textos ganham força na informação que carregam, não fluindo para uma exploração de construção cênica que tire os atores de suas zonas de conforto. Assim o texto ecoando como referência a lembranças de situações do cotidiano e que todos têm acessos. Dessa forma sentindo falta de uma originalidade, verdade, propriedade, que dá um sentido geral ao que acontece, em vez de só narrar ou informar.

 

Arena Selvagem aborda temas importantíssimos como descriminação, racismo, abuso, machismo, política, entre outros. Esses temas que são apresentados como dados e informações, que ganham força através da estética apresentada, só que não ecoam sobre nossos corpos, talvez por falta de voz. Compreendo que atualmente o teatro está cada vez mais próximo da realidade e não busca encenações e dramaturgia “profundas”. Mas isso não pode permitir que os textos não ganhem verdade e sentido na boca dos atores, um exemplo disso e a cena da família que tem uma empregada negra. No final da narrativa, a atriz Marina Kerber fica sozinha no palco e discursa dados sobre o racismo. Ela vai exemplificando no chão do palco, através de signos, os dados sobre o racismo e o que encontramos se colocarmos palavras referentes ao assunto no Google. Neste momento me vejo numa aula e não diante de alguém indignada e que se sente desvalorizada por uma nação que desvaloriza sua pessoa por causa da sua cor.

 

A estética nesta cena se destaca mais que a manifestação da atriz, a voz e a “verdade” das palavras se perdem e ficam sem sentido. Neste momento entendo que a selvageria é compreender o quanto somos seres humanos insanos a ponto de dividir a raça humana. E que está postura não é aceitável. Somos humanos, mas somos bichos. Seres que lidam com sua espécie para uma sobrevivência. Esse conceito que não passa nem perto nas provocações do espetáculo, a selvageria na peça é tão contida, cuidada, detalhada e administrada que não provoca emoções. A todo o momento somos conduzidos a pensar sobre colocações e referências. Digo isso, pois são inúmeras vezes essa repetição no espetáculo. 

 

Duas atrizes param sobre as escadas do Teatro Arena e leiam as manchetes do jornal trazendo acontecimentos da atualidade. Novamente estou diante de dados e informação, sem a voz, indignação e provocação sobre esses temas abordados. Temos a primeira cena que trás situações da reação do corpo, e como se comporta diante de corpos nus. Que também está carregada de dados e informações. Outro momento vem o ringue e a luta, a provocação de um contra o outro. Neste momento o público entrar na proposta e se manifesta loucamente junto à cena, mas a entrega na proposta dessa cena é por causa da estética ou da essência? Pois a estética do espetáculo é brilhantemente executada, permitindo que inúmeras vezes ficassem a frente da atuação dos atores, fazendo que nossos olhos se voltem a ela. Talvez essa seja a maestria do espetáculo Arena Selvagem.  

 

Dois momentos interessantes do espetáculo, são onde a atriz Manoela Wunderlich entra no palco usando um vestido e salto alto e ali, mesmo trazendo uma didática textual ela nos leva a ver e sentir a evolução do homem e o que a raça humana fez com isso. Houve um despertar da consciência e da manifestação que estava diante de nós. Outro momento que chega a ser semelhante a este é o relato feito pela Elisa Heidrich sobre o abuso que ocorreu no Parque da Redenção. Ali encontramos uma atriz que se apropria dos fatos e empresta sua voz e dores para provocar uma indignação e mostrar a selvageria que somos. Nestes momentos percebo a conexão da proposta do espetáculo com a verdade dos atores que usam da estética ao seu favor para construir a cena e chegar com essência ao público. 

 

A proposta da peça Arena Selvagem não é ruim e nem equivocada, é um tesouro nas mãos desse grupo. Um grupo que estuda e busca sua pesquisa para trazer a cena esse trabalho, mas sinto que se eles buscassem provocar esse instinto selvagem no seu público estariam utilizando com sabedoria esse tesouro. Mostrar de fato na pele a provocação que nossos corpos fazem ao ver corpos nus, sentir nojo de sermos insanos e julgarmos o outro pela cor, ou classe social, sentirmos o quanto somos desprezáveis ao não cuidar do planeta e do outro. Como falei inicialmente é um grupo que tem uma caminhada valorizada por um público que os acompanha e estão aplaudindo seus trabalhos, desenvolveram algo dificílimo nos tempos de hoje. Por isso trago essa provocação, que alguns não concordaram, já outros perceberam de outra forma este espetáculo. Mas nenhum tesouro tem valor se não é rico na sua essência, e disso temos de sobra no Grupo Cerco, que deve lembrar que mesmo carregando um tesouro ele deve ser polido e cuidado.         

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