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Cllã

August 15, 2019

 

Há momentos que transcendem o encontro entre a arte e o público. Essa conversa que vem da raiz, das emoções e que reflete nas mais belas almas. Cllã é esse encontro com a origem da manifestação artística do homem e sua expressão. Esse encontro que busca despertar um dialogo singelo com o próximo. Despido de qualquer reconhecimento próprio, vimos bailarinos entregue a arte e ao movimento. Artistas conscientes que seus corpos são instrumentos da arte. E essa sensibilidade se transforma em sentimento que desperta no público as melhores sensações possíveis. Diante disso tudo se apresenta um enredo baseado na vida como ela é. O espetáculo Cllã se torna um espetáculo direto, para chegar ao público, sem enrolação, e nós leva a momentos inesquecíveis.

 

Cllã é composta por uma junção de acertos. Uma direção compreensível e que tem um cuidado em colocar no palco um resultado brilhante do processo corporal. O que desperta a atenção neste projeto e ver três bailarinos – Alex Sander do Santos, Luciana Dariano e Lauren Lautert – que apresentam maturidade na sua execução. Ambos trilham carreiras significativas para a arte gaúcha, só que percebe-se um amadurecimento, uma compreensão e paciência na composição de cada movimento, cena e diálogo. Vimos diante de nós artista que souberam dar à luz, essência na obra construída e na preocupação da compreensão quanto na criação. Essa observação é nítida neste projeto que se destaca com esse cuidado minucioso e amável da direção.     

 

Outro aspecto que não passa despercebido é a trilha sonora. Pois a criação dessa trilha para o espetáculo é feita com instrumentos musicais e que mesclam com sons do cotidiano. Alguns sons acabam se destacando no decorrer do enredo devido à técnica dos bailarinos ao colocarem seus movimentos precisos que se moldam na trilha. Esse fluir entre movimento e ritmo lhe tira o fôlego quando percebe o exato momento, o encaixe, a emenda que acontece na ação e repetição dos movimentos. Os elementos que compõem a cena e que são manipulados pelos bailarinos, despertam no imaginário do público lembranças provocativas. Pois os elementos relembram uma sala de estar que tem sofá, mesa, cadeiras, copos, pratos, televisão, espelho, rádio e outros elementos, que vão ampliando essas observações.

 

O interessante é perceber que esses elementos entram de forma inusitada na cena, assim estimulando o faz-de-conta, e repare que isso é feito para um público adulto, que embarca na proposta. Quando os elementos entram em cena estimulam lembranças pessoais de cada um. O espetáculo Cllã te leva a observar, além disso. Como se se trouxe para a cena a definição da Arte Conceitual, onde apresenta o objeto, trás o seu conceito a sua utilidade e também desconstrói a sua forma, uso e significado. Assim nós levando a ver e rever as diversas possibilidades do seu uso. Isso se estende para o movimento e a criação de todo espetáculo.    

 

Se perceber no decorrer do espetáculo Cllã, não se escuta a voz dos atores, a comunicação é feita pelo corpo, nem nos agradecimentos os bailarinos usam suas vozes. A uma exceção num pequeno momento, na cena do chá, onde a uma referência verbalizada para ampliar a cena apresentada. Os bailarinos são excepcionais. Alex Sander do Santos transcende agilidade e firmeza na sua expressão, que nos impacta com sua rapidez nos movimentos precisos que marca a sua manifestação. Luciana Dariano tem a presença marcante dos movimentos, sua firmeza se mistura com o sorriso no rosto, fazendo com que você observa os detalhes na sua composição. Lauren Lautert faz com que você não desgrude os olhos de inúmeros momentos, pois consegue traduzir a sua expressão corporal num tom cômico, que te leva a dar boas gargalhas e observar uma excelência na sua criação.

 

E a excelência se estende para a produção que tem um cuidado extremo com todo o espetáculo, desde a chegada ao teatro, à entrada do público no local e a saída de todos. A um cuidado no início do espetáculo quando escutamos uma gravação hilária dos apoiadores, que surpreende o público e o convida a se aproximar do espetáculo. Esse cuidado inicial de ter uma breve desconstrução do “intelecto” teatral, sempre faz com que o público desarme-se e permita prestigiar o espetáculo. No palco o impecável manuseio dos objetos e elementos cênicos torna a proposta mais deleitável possível.

 

Cllã consegue equilibrar o conceito da expressão corporal, trás a grandeza da Arte Conceitual, estimula o imaginário do público e ainda lhe faz reencontra a raiz do teatro e sua expressão. Somos abençoados em ter este espetáculo na arte gaúcha e poder dizer que é nosso. Nosso, pois foi produzido e feito aqui. Mesmo com todas as dificuldades que encontramos num Estado barrista e movido por bandeiras políticas, ainda conseguimos ver o manifesto da origem da expressão. Que Cllã possa rondar as terras nacionais e levar essa essência da arte que se constrói no nosso Estado, e que assim possam mostrar, o quanto existe profissionais excelentes na nossa terra.    

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