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O Gato de Botas e Bombachas

August 13, 2019

 

A literatura tem inúmeros ramificações e caminhos para chegar ao público. Atualmente se produzem textos e narrativas rasas e que se tornam apoio pedagógico para instruir ensinamentos a humanidade. Assim esquecendo-se da essência da literatura que é despertar sensações e apreciações ao escutar uma história. E com essa preocupação desse resgate de emoções somos abençoados pela magnitude do conto O Gato de Botas de autoria de Charles Perrault. A obra ganha uma adaptação feita pela Cia Vento Minuano, que ao seu entendimento traz para o teatro infantil O Gato de Botas e Bombachas. Que acredito ser inspirado numa coleção literária chamada – Reino Grande do Sul – da editora Edibook.

 

O conto original narra a história sobre o caçula de três irmãos que recebe de herança do seu pai um gato de estimação. Assim, o caçula, passa por poucas e boas e não consegue ter sucesso na vida. Mas o gato tem características humanas e a esperteza de um malandro, e dá seu jeito para ser recebido por um rei, e dali construiu uma mentira atrás da outra, para ajudar seu dono enriquecer. Podemos usar da licencia poética para dizer que o gato tinha o “jeitinho brasileiro de ser”. Pois tanto ele, como os brasileiros tem uma criatividade para sair de grandes períodos tenebrosos. A uma adaptação nesta narrativa apresentada pela Cia Vento Minuano, o enredo não se modifica, trazendo os fatos narrados por Perrault, que se costuram com a cultura e realidade gaúcha.

 

O Gato de Botas e Bombachas trás pequenas mudanças, pois pela terras gaúchas não existia rei, mas sim fazendeiros e coronéis. O Gato é de estimação, mas ganha vida ao ser enfeitiçado pelo feiticeiro Boris. E consegue fazer que seu dono case com a filha de um grande fazendeiro, após desvendar roubo de gados. Só que tudo essa narrativa se dá através de muita diversão. Essa proposta também se atrela a 21 canções originais feitas para o espetáculo. Dessa forma aproximando muitas pessoas a cultura gaúcha que passa pelo imaginário de muitos. Pois se acha ainda que o Estado do Rio Grande do Sul só é habitado por gaúchos tradicionais. Mas nosso Estado é diversificado, assim deixando a cultura gaúcha se manifesta só na semana farroupilha, que é abordada intensamente nas escolas e em alguns eventos regionais. Por isso, acredito que essa escolha do Cia Vento Minuano é louvável para trazer essa temática que necessita ser conhecida e ilustrada.

 

Além das referências nos versos musicais, instrumentos, trajes, danças e elementos da cultura gaúcha. O espetáculo é composto por cinco atores em cena, assim me fazendo sentir a falta de uma mulher no elenco para trazer a representação do papel feminino nesta cultura. Só que a uma ilustração dessa figura no espetáculo, feita pelo ator Tom Peres, que brinca com essa proposta e trás uma alegria a todos. Compreende-se que existem muitas tentativas e escolhas na peça, que acredito serem boas escolhas. Algo que me incomoda de fato e ver tantos instrumentos no palco e o pouco uso deles, pois os atores revezam as cenas atuando e tocando os instrumentos. Outro ponto é a voz, deve-se ter o uso do microfone para auxiliar os momentos musicais. Pois dependendo da posição ou movimentos que eles fazem as vozes se perdem no teatro e assim não escutados os versos.

 

O ator Luciano Pieper se coloca como o divertido Gato de Bodas e Bombachas. Trazendo para a cena os movimentos corporais do gato e ainda misturar com o jeitinho malandro de ser. Assim acabamos encontrando um Gato de Botas que deixa de ser apresentado como galante e viril, como muitas vezes o teatro e a literatura o utilizam. O seu dono, que é interpretado por Fabrizio Gorziza, trás a ingenuidade do menino moço, que ainda não aprendeu nada com a vida, mas que sendo levado pelo Gato acaba se dando bem. Essa inocência que existe na personagem é retratada com graça por Gorziza.

 

A escolha feita pelo grupo não seria das melhores, mas foi à forma que eles encontraram para atrelar o conto a tradição gaúcha. Alguns entenderam como ofensa ao Perrault e outros a cultura gaúcha. Só que a escolha dessa junção foi bem aceita pelo público, e ao prestigiar o espetáculo, compreendi essa ousadia, que poderia perder os trilhos, mas não é isso o que acontece. De fato sempre defenderei os contos maravilhosos ou contos domésticos, que são os contos de fadas, pois a grandeza existente nas entrelinhas dessas narrativas ecoa com naturalidade sobre nós. O Gato de Botas e Bombachas se torna um espetáculo para a família. Uma obra que junta literatura, cultura, música e teatro. Constrói uma atmosfera que é recebida com alegria pelo público que ri e aplaude com animo esse espetáculo da Cia Vento Minueto.   

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