©2018 by Crítica e Diálogo. Proudly created with Wix.com

O Gato de Botas e Bombachas

August 13, 2019

 

A literatura tem inúmeros ramificações e caminhos para chegar ao público. Atualmente se produzem textos e narrativas rasas e que se tornam apoio pedagógico para instruir ensinamentos a humanidade. Assim esquecendo-se da essência da literatura que é despertar sensações e apreciações ao escutar uma história. E com essa preocupação desse resgate de emoções somos abençoados pela magnitude do conto O Gato de Botas de autoria de Charles Perrault. A obra ganha uma adaptação feita pela Cia Vento Minuano, que ao seu entendimento traz para o teatro infantil O Gato de Botas e Bombachas. Que acredito ser inspirado numa coleção literária chamada – Reino Grande do Sul – da editora Edibook.

 

O conto original narra a história sobre o caçula de três irmãos que recebe de herança do seu pai um gato de estimação. Assim, o caçula, passa por poucas e boas e não consegue ter sucesso na vida. Mas o gato tem características humanas e a esperteza de um malandro, e dá seu jeito para ser recebido por um rei, e dali construiu uma mentira atrás da outra, para ajudar seu dono enriquecer. Podemos usar da licencia poética para dizer que o gato tinha o “jeitinho brasileiro de ser”. Pois tanto ele, como os brasileiros tem uma criatividade para sair de grandes períodos tenebrosos. A uma adaptação nesta narrativa apresentada pela Cia Vento Minuano, o enredo não se modifica, trazendo os fatos narrados por Perrault, que se costuram com a cultura e realidade gaúcha.

 

O Gato de Botas e Bombachas trás pequenas mudanças, pois pela terras gaúchas não existia rei, mas sim fazendeiros e coronéis. O Gato é de estimação, mas ganha vida ao ser enfeitiçado pelo feiticeiro Boris. E consegue fazer que seu dono case com a filha de um grande fazendeiro, após desvendar roubo de gados. Só que tudo essa narrativa se dá através de muita diversão. Essa proposta também se atrela a 21 canções originais feitas para o espetáculo. Dessa forma aproximando muitas pessoas a cultura gaúcha que passa pelo imaginário de muitos. Pois se acha ainda que o Estado do Rio Grande do Sul só é habitado por gaúchos tradicionais. Mas nosso Estado é diversificado, assim deixando a cultura gaúcha se manifesta só na semana farroupilha, que é abordada intensamente nas escolas e em alguns eventos regionais. Por isso, acredito que essa escolha do Cia Vento Minuano é louvável para trazer essa temática que necessita ser conhecida e ilustrada.

 

Além das referências nos versos musicais, instrumentos, trajes, danças e elementos da cultura gaúcha. O espetáculo é composto por cinco atores em cena, assim me fazendo sentir a falta de uma mulher no elenco para trazer a representação do papel feminino nesta cultura. Só que a uma ilustração dessa figura no espetáculo, feita pelo ator Tom Peres, que brinca com essa proposta e trás uma alegria a todos. Compreende-se que existem muitas tentativas e escolhas na peça, que acredito serem boas escolhas. Algo que me incomoda de fato e ver tantos instrumentos no palco e o pouco uso deles, pois os atores revezam as cenas atuando e tocando os instrumentos. Outro ponto é a voz, deve-se ter o uso do microfone para auxiliar os momentos musicais. Pois dependendo da posição ou movimentos que eles fazem as vozes se perdem no teatro e assim não escutados os versos.

 

O ator Luciano Pieper se coloca como o divertido Gato de Bodas e Bombachas. Trazendo para a cena os movimentos corporais do gato e ainda misturar com o jeitinho malandro de ser. Assim acabamos encontrando um Gato de Botas que deixa de ser apresentado como galante e viril, como muitas vezes o teatro e a literatura o utilizam. O seu dono, que é interpretado por Fabrizio Gorziza, trás a ingenuidade do menino moço, que ainda não aprendeu nada com a vida, mas que sendo levado pelo Gato acaba se dando bem. Essa inocência que existe na personagem é retratada com graça por Gorziza.

 

A escolha feita pelo grupo não seria das melhores, mas foi à forma que eles encontraram para atrelar o conto a tradição gaúcha. Alguns entenderam como ofensa ao Perrault e outros a cultura gaúcha. Só que a escolha dessa junção foi bem aceita pelo público, e ao prestigiar o espetáculo, compreendi essa ousadia, que poderia perder os trilhos, mas não é isso o que acontece. De fato sempre defenderei os contos maravilhosos ou contos domésticos, que são os contos de fadas, pois a grandeza existente nas entrelinhas dessas narrativas ecoa com naturalidade sobre nós. O Gato de Botas e Bombachas se torna um espetáculo para a família. Uma obra que junta literatura, cultura, música e teatro. Constrói uma atmosfera que é recebida com alegria pelo público que ri e aplaude com animo esse espetáculo da Cia Vento Minueto.   

Please reload

Our Recent Posts

November 11, 2019

November 1, 2019

October 21, 2019

Please reload

Archive

Please reload

Tags

Please reload