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Às Vezes Eu Kahlo

August 2, 2019

 

Alguns espetáculos se tornam obras de arte. Transcende a riqueza cultural e se manifestam como obras primas. Digo isso pelo fato do espetáculo de dança Às Vezes Eu Kahlo apresentar uma força excepcional em cena. E esse poder não é só pelo tema norteador – Frida Kahlo, mas pela sua forma de trazer a vida e obra dessa grande artista. Kahlo se torna uma persona de difícil ilustração em outras linguagens da arte, pois a sua história e obras falam por si. Pois foi através da sua existência que se desenvolveu cada pintura, onde vive sua essência, anseios, vivencias e reflexões. Trazer isso átona é um trabalho ardo e de difícil resultado, mas feito com maestria pela Companhia de Dança GEDA.

 

Quando relato sobre a excelência do projeto, estou me referindo à forma escolhida para abordar a história pessoal da artista. Assim colocando na cena a dor – física. Estes que poderiam ser motivos concretos para que Frida Kahlo não pudesse se tornar pintora. Essa postura levantada pelo espetáculo Às Vezes Eu Kahlo mostrou a força de uma artista, mulher, pessoa que nenhum momento se deixou vender pelos seus problemas. Essa transformação que se tornou a sua voz, seu grito, seu modo de lidar com tudo, e ainda trazer para o mundo, colocações pessoais da sua existência manifestadas na sua arte.

 

O mesmo fez a Companhia de Dança Contemporenea GEDA que nestes anos todos encontrou a sua voz, vivendo independente, sem ter uma sede própria, mas vencendo os obstáculos da vida e se preocupando em produzir arte. Às Vezes Eu Kahlo pode ser um espetáculo que se aproxima da história desse grupo, que mostrar o cuidado nas suas produções e que busca sua essência para produzir a arte do movimento.

 

A personagem Frida é representada pela bailarina Graziela Silveira que transmite força do início ao fim. Essa força que dialoga com os movimentos, sentimentos e atmosfera do enredo. Com movimentos precisos, carregados de expressões, que complementam as ações do corpo. Dando assim uma intensidade que desperta a atenção do público. Dessa forma nos convidando apreciar o espetáculo sem querer desviar nossa atenção do palco.   

 

Às Vezes Eu Kahlo, trás os momentos de mudança do corpo da artista, que foram diversos. Aos seis anos, ela contraiu poliomielite, o que causo problemas permanentes em sua perna esquerda. Mais tarde sofreu um acidente de ônibus, e o resultado foram mais de trinta cirurgias no decorrer da sua vida. Vivenciou inúmeros relacionamentos amorosos, um deles foi com Leon Trótski – líder revolucionário russo, e outro, que não passa despercebido, foi com o artista mexicano Diego Rivare, uma relação turbulenta e abusivo. No decorrer da vida amorosa sofreu abordos espontâneos. E no final da sua trajetória Frida Kahlo esteve numa cadeira de rodas. E este sofrimento físico onipresente e o intenso tormento psicológico são aparentes no simbolismo da artista e do espetáculo Às Vezes Eu Kahlo.

 

A cada momento que as dores de Kahlo vão habitando o corpo de Graziela Silveira, a alma de Frida vai ganhando o palco e se transformando numa profunda motivação para todos. Os elementos das obras da artista se misturam visualmente neste espetáculo. Assim nos levando a compreender um pouco das 143 pinturas produzida por Frida Kahlo. Um dos momentos mais significativos e quando vimos na cena, Frida (representada por Silveira), já na cadeira de rodas,  usando a lâmina do serrote para ver seu reflexo, e ali constrói os traços da face da pintora. Desde modo fazendo referência aos mais de 50 autorretratos que trazem enfeites mexicanos, baseados em tradições folclóricas e religiosas. Os mesmo que ela usava para representar suas dores e anseios da vida.

 

Complexo a obra e vida de Frida Kahlo. Devido a esta narrativa conturbada é de difícil compreensão e entendimento para se produzir um espetáculo. Deve-se e ter um mergulho profundo nas águas dessa vida para entender e compreender de fato o que se passou com essa artista. Deter-se nas obras e principalmente nos seus autorretratos e compreender esses elementos que falam tanto sobre seus anseios e assim trazer um espetáculo que pode se aproximar dessa atmosfera. GEDA foi compreensível ao traduzir as dores do corpo em movimento e ao mesmo tempo trazer uma ilustração das obras da artista. Mesmo poucos conhecedores da vida e obras de Frida, conseguem se aproximar do espetáculo e sair provocados pela proposta. Pois nesta cena o que ganha destaque é a vida de uma mulher que se torna humana ao fazer da arte a sua voz.

 

Foto: Ederson Nunes 

 

 

 

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