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Kátharsis

July 31, 2019

 

A arte e sua multiplicidade de linguagem me encantam. Desde muito cedo tive o contato com o cinema, algo que era um programa de família. Com o tempo fui entendendo que cinema era algo que gostava de apreciar, então para minha surpresa, entendi que curta-metragem e cinema nacional estavam sempre nas minhas escolhas. O cinema independente me encanta, mesmo tendo um público específico, ainda se torna um dos trabalhos mais ricos do cinema, devido a sua criatividade na produção do material. E foi nesta proposta que o curta-metragem de Mirela Kruel chegou ao meu conhecimento, e para minha surpresa, o resultado desse projeto se dá na construção de um excelente curta-metragem chamado - Kátharsis.

 

Assisti inúmeras vezes Kátharsis para tentar encontrar onde está a perfeição do trabalho. Acredito que é uma junção de elementos que se reunirão e deram certo. A atuação de Fernanda Petit e Bruno Krieger nos deixa embabascado. Estes atores que se apropriarão com maestria de um roteiro – dos roteiristas Marcos Souto e Tiago Cecconello - que te conduz a vivenciar uma experiência obscura na narrativa que te surpreende no final. Este conjunto se destaca com a sensibilidade da diretora Mirela Kruel, que soube exaltar essa junção muito bem.

 

Quando tive a oportunidade de assistir pela primeira vez Kátharsis, sou tomado por um espanto no desfecho da narrativa, que fico perplexo com a criatividade encontrada na condução para naquele final. O curta é todo em preto e branco, assim revelando detalhes específicos, sempre com um ar de obscuridade. Essa proposta de não deixar tudo as claras se amplia para o resto da obra que nos fascina.

 

Essa atmosfera de luz e sombra muitas vezes remetia a recordar obras de Caravaggio. O pintor italiano se torna a grande influencia no estilo barroco. Suas obras procuram a realidade palpável e concreta da representação, está que se destaca com tons terrosos contrastam com os fortes pontos de luz. Esse conceito se amplia na Arte Barroca que mexe com o emocional do ser humano, a partir das características fortes e vivas. Naquela época o autoconhecimento e o autodomínio, eram a “filosofia” do momento, que acreditava-se que dessa forma se conheceria o intimo de todos os homens, e poderia dominar o homem e o ambiente social, trazendo a luz do conhecimento as falhas humanas. Todo esse conceito está em Kátharsis, que ainda consegue trazer fragmentos da mitologia e nos colocar diante de uma narrativa excepcional.

 

Estas surpresas acontecem devido à personagem Clarice (Fernanda Petit) ir de encontro ao Hermes (Bruno Kieger), para fazer um teste de uma personagem. Hermes deixa claro que irão encenar uma tragédia e para isso, é necessário que ela faça daquela interpretação, a interpretação da sua vida. E desde momento em diante, o papel de Kieger, começa a incentivar Clarice a adentrar mais e mais nas profundezas da personagem, que ela deve interpretar. Com o roteiro em mãos, Clarice começa a ler os diálogos, que inicialmente soam com insegurança e despretensiosos. Só que então ela é tomada por uma atmosfera avassaladora e o texto toma a personagem de uma forma que mexe com sua essência, deixando Clarice desconsertada após o termino de cada diálogo.    

 

Presta atenção na condução dessas viradas da personagem Clarice. Fernanda Petit mostra um amadurecimento de interpretação que nos deixa transtornado nas mudanças sentimentais da personagem. Toda vez que a personagem toma para si o diálogo que deve narrar, ela é capturada por uma força, que logo se desprende do roteiro e encara a câmera. Sua fala é totalmente dita para nós, como se a raiva, anseia, desejo e monstruosidade está em nós, no reflexo que encontra entre ficcional e real. Os momentos que ela perde o controle e recorda a consciência são deslumbrantes, pela potência na virada entre um momento e o outro, que se dá em segundos, mas o domínio dessa transformação é perturbador. Esse tom que Petit trás para cena me faz recordar Daniel de Oliveira na minissérie Som e Fúria. A cena que ele precisa dizer o famoso texto de Hamlet é um marco na atuação e construção de personagem, que a atriz Petit faz algo semelhante neste trabalho.  

 

Poderíamos adentrar a inúmeras outras colocações desse trabalho que apresenta uma excelência na sua construção. Só que dessa forma iríamos desenvolver tantas referências que deixariam esse texto longo demais. A última coisa que gostaria de ressaltar, antes de finalizar meus apontamentos, e no roteiro. A costura dessa obra é de um cuidado primordial. As falas são precisas, que vão te levando ao clímax do enredo com uma sutileza e quando vê, somos tomado pela obra. Esse cuidado que deve ter vindo de leituras e releituras, escritas e reescritas, e talvez até os roteiristas encenassem seus escritos, para ver se havia coerência. Para bons conhecedores da literatura e do teatro, sentiram uma familiaridade na proposta apresentada por Marcos Souto e Tiago Cecconello que de fato é à base do enredo.   

 

O curta-metragem Kátharsis é de fácil acesso na internet, qualquer um pode prestigiar esse trabalho e encontrar essas e outras referências neste projeto encantador. A muitos que irão discordar de colocações que fiz e outros iram até acrescentar mais apontamentos, este é o intuito da observação crítica. Espero que possam estar buscando esse curta-metragem e valorizando nosso cinema e projetos independentes que merecem nossos aplausos.   

  

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