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História do Futuro

July 30, 2019

 

Renascer! Presencio o ressurgimento da oralidade numa leitura contemporânea deslumbrante apresentada na peça História do Futuro. O anseio que habita nas reflexões do ator Caco Coelho se torna verdades que brindam seus lábios ao trazer a narrativa de Antônio Vieira. O ator compõe a atmosfera dos filósofos e sobe ao palco com a intenção de provocar meditações eternas no público. Trazendo a luz um texto escrito há trezentos anos, que está carregado de profecias de uma terra rica, mas habitada com almas pobres. Sobre o teatro ecoa a compreensão das colocações que se materializam nas nossas mentes nos dando uma nova consciência. Essa transformação acontece devido à afeição do ator ao compreender as linhas e entrelinhas da obra literária.    

 

Todos os que estavam presentes no espetáculo História do Futuro, devem ter manifestado o mesmo que acorreu comigo. Sentia-me elevado a cada palavra dita por Coelho, e como se um véu da consciência humana desprendesse das analises existentes na minha mente. Ao retornar para casa, passei o resto da noite digerindo a narrativa e desenvolvendo novos diálogos sobre nossa terra – o Brasil. Na primeira parte da narrativa somos colocados diante da sedução da humanidade sobre o perscrutamento do futuro. Logo depois, somos levados ao fundo da pátria abundante que, porém, possui um povo terrível. No último momento, consegue-se arquitetar das cinzas um pais ressurgido com ética e harmonia que aponta para um futuro de plenitude.

 

O choque acontece pelo fato das palavras serem condizentes com a realidade, tanto histórica quanto atual. A sensibilidade de Vieira em compreender a raça humana e suas fragilidades e de nos deixar atônitos ao percebermos que os caminhos tomados nas terras brasileiras vão de encontro com sua análise. Esta análise que vem de encontro com o público de um formar teatral, sem cair no didático. Fazendo com que a obra literária ganha sua obra prima no teatro. Na arte de contar histórias ou da oralidade o que deve prevalecer é o conteúdo, a palavra, que não deve ganhar distrações que possam desviar nossa concentração desse ritual. Pois este exercício de escuta e reflexões está na genética humana, que ocorreu desde o início da caminha universal.

 

E quando se está diante da arte da oralidade, compreendemos que quem utiliza muitos elementos, para ajudar a ilustrar a história, na verdade está tentando desviar o foco – do poder da fala. E neste espetáculo História do Futuro vimos projeções mapeadas que ampliam a ilustração de algumas colocações da narrativa, mas que nenhum momento desvirtua o poder de fala. Este poder que é tão presente no ator e na sua verdade, que inúmeros momentos ele se mantém imóvel, utilizando de poucos gestos para se comunicar. Junto com essas imagens projetadas, ainda somos agraciados com vídeos do ator Lima Duarte que trás alguns trechos da narrativa e histórias complementares.

 

Esse sábio projeto talvez passe despercebido por muitos, devido à temática abordada no enredo. Ou desperte a curiosidade de outros, pelo fato da supervisão de direção ser de Vera Holtz, mas quem assina a direção cênica é Eduardo Severino que consegue exaltar a obra com excelência. Mas o certo seria que todos fossem em busca desse espetáculo, pelo simples fato do conhecimento histórico e ampliação da reflexão social. Sem contar o presente de reviver a oralidade como nunca vista nos últimos tempos, esse resgata faz com que observemos a qualidade da arte e suas formas de construção num tempo onde a arte tinha voz ativa e vivia para educar um povo. Atualmente a arte se torna passiva e vive para, muitos momentos, um egocentrismo puro. Se escutássemos Antônio Vieira teríamos base para construir uma cultura contemporânea mais sólida e consistente, a ponto de ser a riqueza de uma terra, aonde o futuro se torna mais uma vez história.

 

Foto: Guilherme Almeida

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