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Os Saltimbancos

July 26, 2019

 

Clássico! A Cia Garagem das Artes resolveu adaptar o musical infantil Os Saltimbancos. A escolha para essa construção se dá simplória e sem muita novidade. O grupo não ousou ao recriar essa obra prima do teatro, que foi explorada de diversas formas na música, televisão, literatura e no cinema. Essa escolha tradicional feita pela diretora Sandra Loureiro coloca como foco a apresentação das canções, sem explorar as outras camadas do enredo. O público se viu diante de um reencontro com as belas canções, mas não ultrapassa essa barreira. Nenhum momento estamos diante da proposta inicial da peça e os questionamentos levantados no roteiro.

 

No teatro musical as canções são a expressão e a forma de dialogar com o público. É na letra da música que estão às falas e a intenção da narrativa. Dessa forma este é o recurso que os atores devem usar para engrandecer a peça teatral. Nesta proposta apresentada pelos atores - Eraldo Junhinho, Antonio Lima, Margarete Scherer, Mariana Fernandes, Gabriel Brochier e Rodrigo Reis – não existe esse cuidado nos momentos musicais. As canções acabam sendo utilizadas para mostrar a “capacidade” que o ator tem de “cantar”. Só que não existe significado nas palavras que soam no teatro.

 

As trilhas não podem ser só uma apresentação musical, elas têm que carregar a manifestação de cada animal. O Jumento questiona o seu trabalho de graça, já o Cachorro questiona o serviço de estar a dispor do seu dono. A Galinha trás a sua tristeza da forma que é tratada pelo seu patrão, e a Gata de perder a mordomia que tinha em casa e que na rua não tem. Quando Chico Buarque de Hollanda traduz as canções originais e se torna intérprete delas, se percebe a magia da canção e ao mesmo tempo se escuta o clamor de cada personagem. Para isso acontecer o ator ou a atriz deve buscar essa intenção que está por trás de cada letra musical. Os Saltimbancos é uma obra rica e universal a ponto de tornar através da ludicidade uma nova reflexão e composição para uma sociedade.

 

Nesta proposta apresentada pela Cia Garagem das Artes, deve se repensar os diferentes níveis que os atores se encontram. Pois essa diferença acaba prejudicando algumas canções que nem contexto consegue ter. Só que mesmo com essas dificuldades os atores cantaram todas as canções do repertório sem auxilio do microfone. Pois o espetáculo é intimista e a proximidade do público permite essa proposta sem auxilio vocal. A proximidade do público pode ser ruim quando conseguimos perceber o espanto nos erros cometidos em cena.

 

A força da peça musical Os Saltimbancos vem trazer questionamento e protesto dos animais, que se sentem menosprezados a partir das atitudes dos donos. Foi dessa forma que o italiano Sergio Bardotti – criador das letras - utilizou para dialogar com as crianças, desde cedo, sobre o poder e o papel do homem diante dos animais, que pode ser estendido em diversas referências da sociedade em que vivemos. Esse questionamento vem desde do conto que inspirou a criação dos Saltimbancos, que é Os Músicos de Bremen dos Irmãos Grimm. Esse resgate deve ser feito na obra Os Saltimbancos para que a peça não fique só numa apresentação musical de canções conhecida por todos, mas que busque a essência da motivação da sua existência e de estar no formato de peça musical.

 

Foto: Lucas Castanheira  

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