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Expresso Paraíso

 

É gratificante ver o cuidado entre arte e sua imersão com o público na peça “Expresso Paraíso”, que deixa claro nas cenas o desejo de trazer à tona as histórias que gostariam de contar e a simplicidade da sua compreensão. Expresso Paraíso desenvolvido pelo Ato Cia. Cênica, nasce no Projeto Transit do Goethe-Institut, que escolheu para este ano montar uma obra do dramaturgo alemão Thomas Köck. O desafio é aceito pelo diretor Mauricio Casiraghi que resolve seguir seus instintos e observar o texto com gentileza e dele extrair a essência da universalidade dos temas abordados.

 

O dramaturgo alemão Thomas Köck escreve seu roteiro repleto de denúncias, como por exemplo, imigração, trabalho escravo, abuso e busca pelo paraíso. Este paraíso que o homem tanto corre atrás e que espera um dia obter. Será que de fato existe esse paraíso? No palco encontram-se reflexões que podem se tornar pesadas para o público, devido à profundidade dos fatos. Só que nas mãos do diretor Casiraghi essa intensidade fica nas entrelinhas ao resolver contar as histórias de cada personagem e assim dar a eles a empatia entre público e enredo. O enredo agressivo se torna vivo para tentar com sabedoria convidar o público a estar refletindo sobre as temáticas abordadas de forma calorosa e compreensível.

 

Fico eufórico ao sair do espetáculo e compreender do início ao fim o roteiro de Köck, pois sentia que sempre estava distante das colocações da dramaturgia alemã. Mas dessa vez me inserir entre as personagens e pude entender suas escolhas, seus caminhos e ações diante da vida, que não foi zelosa, e colocou todos em grandes questionamentos. Mesmo não vivenciando a realidade abordada na narrativa de Köck, tivemos a grandeza de ver com outros olhos essas temáticas. Pois Casiraghi traz elementos universais para essa proposta. Como por exemplo, a questão da mulher e seus direitos, a liberdade de cada um, o relacionamento amoroso e suas limitações, a dor da perda – individual e coletiva – entre outras temáticas.

 

O movimento é o ritmo estão visíveis em todo o decorrer do espetáculo. Numa das extremidades do palco se encontra um trenzinho elétrico de brinquedo que percorre os trilhos sem cessar, até o termino da peça. O cenário se movimenta inúmeras vezes para trazer para cena, diversos ambientes, onde as personagens contam suas histórias. E vimos à licença poética do movimento, onde os atores em filaras, manipulam sombrinhas vermelhas que representam o fluir do deslocamento, do tempo e da ação. Também a o uso do vídeo que inúmeras vezes traz a ludicidade do trenzinho que ganha destaque no fundo do palco para observarmos a sua função. E junto dessa projeção a um ator ou atriz que complementa a cena trazendo fatos e dados pertinentes que acrescentam as declarações feitas em todo o decorrer da narrativa.

 

E outro destaque do espetáculo é estar diante da atriz Danuta Zaghetto. A atriz em outros projetos sempre protagonizou cenas cômicas e soube usar o riso como estimulo de novas reflexões.  E neste projeto, me pego vendo a atriz dando viva a duas personagens. Uma delas é uma moça que trabalha numa fábrica de roupas e resolve mudar sua perspectiva de vida. A força da personagem exige que Zaghetto exercite outra veia do seu oficio. E quando me dou por conta, estou admirando a personagem, e não estou com um sorriso no rosto. Danuta Zaghetto promete sua caminha como atriz e não lhe falta fôlego para essa corrida.

 

Também temos Rossendo Rodrigues, que se destaca em outros projetos com sua atuação. E no Expresso Paraíso a sua excelência não passa despercebido. Rodrigues abre o espetáculo com um monólogo excêntrico e desbravador, onde narra às dores de um homem que sofre queimaduras pelo corpo. A agressão que houve no corpo do homem é sentida na voz do ator que encarna essa dor e nos leva a enxergar os momentos onde a fogo percorre todas as células da sua pele. E a mesma sensação retorna no termino do espetáculo onde Rossendo Rodrigues conclui a história desse homem e fecha o espetáculo com chave de ouro. A cena ganha extensão pela proposta plástica a partir da criatividade de usar a luminosidade das telas dos celulares, cada celular com uma cor, que ilumina, penetra e ganha o corpo da personagem interpretada por Rossendo Rodrigues.

 

E com essa simplicidade se vê a identidade e delicadeza de Mauricio Casiraghi que consegue um equilíbrio na sua criação e humanizar todas as colocações. Mesmo usando essa leveza para contar essa história não a como sair desse encontro sem nós sentirmos mutilados pelas inúmeras informações. Um enredo pesado e destrutível para nossos olhos e ouvidos. E se pudermos compreender essa amplitude que se encontra no espetáculo conseguiremos refletir sobre as mudanças que podem ocorrer a partir das escolhas que fizemos e do paraíso que buscamos estar. Expresso Paraíso nos permite encontra a sensibilidade ao estarmos diante da realidade social e nos permitir sermos mais humanos.     

 

Foto: Adriana Marchiori

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