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O Paradoxo da Queda

 

Espirituoso! Encontrar na cena gaúcha o jovem Guilherme Conrad é estar diante de um espírito desbravador que busca levar novos vôos para  os palcos. O trabalho feito em O Paradoxo Da Queda é totalmente minucioso e atento, devido ao uso do trampolim acrobático. Esse cuidado se estende para toda a proposta que apresenta uma excelência na técnica e domínio corporal. Assim limitando a atmosfera poética a dialogar com a técnica, deixando o método a frente desse espírito desbravador. A peça tem os elementos certeiros para conseguir essa fusão entre arte e técnica. O espetáculo está caminhando para esse amadurecimento, que deve obter uma nova observação de Conrad a cada nova apresentação.

 

O corpo quer expressar toda a sua maestria diante do público, mostrar as inúmeras formas que existe do movimento. Esse é o intuito da peça. Conrad mostra que sabe percorrer esses caminhos e desafiar a todos a olharmos para o corpo com novos horizontes. O Paradoxo Da Queda é dividido em dois momentos. O primeiro acontece no chão onde o ator/bailarino nos coloca diante da questão da queda. O que o corpo faria numa queda? Na verdade ao caminharmos estamos tentando equilibrar nossa massa corporal para não cair ao chão, devemos encontrar equilíbrio e forças para isso. E desse modo somos levados a presenciar cenas excelentes neste primeiro momento. Guilherme Conrad simplesmente tira-me da zona de conforto ao movimentar-se sobre o chão e trazer os elementos cênicos que ajudam a provocar o público. Nunca tinha percebido tantas possibilidades de movimentos, formas e forças do corpo. Os membros são capazes de manifestar-se de modo excêntrico e peculiar.

 

No segundo momento Conrad sai do chão e inicia seu manifesto no trampolim acrobático. No início achei interessante essa queda sendo amortecida por um trampolim e seu contato do corpo no ar. Vi duas a três cenas que encantam, mas quando chegam às próximas cenas, percebe-se que o trampolim acrobático limita o potencial de Guilherme Conrad. Quando o ator/bailarino se encontra no chão vimos sua habilidade e aonde ele pode chegar, mas depois parece que ele não consegue o mesmo estando no ar. O voou necessita de uma precisão, técnica e concentração, que Conrad tem de sobra, mas nesse momento a técnica não sobressai à arte. Como se o método ficasse a frente da poesia que ele gostaria que chegasse até o público. O que acontece de fato no trampolim são cenas que ilustram essa hipótese da queda sendo amortecida e as formas de explorar os vôos. Uma das cenas que despertou meu olhar e a representação do homem na Lua e sua caminhada sobre aquele terreno, onde se vê o equilíbrio do corpo, peso, ritmo que se mistura com a atmosfera da expressão e nós leva a arte do movimento.

 

Toda a proposta é costurada por narrações que trazem temáticas de reflexões que permeiam a filosofia, mitologia e ciência. Essas falas contêm a voz do ator/bailarino que pontua colocações norteadoras para as cenas que iram acontecer. Esses diálogos soam de bom gosto, pois entende-se que são a base do trabalho e pesquisa feito pelo Conrad. Por isso, que acredito tanto neste projeto e na sua metamorfose, a partir deste processo ativo de estar em contato com o público. Sentimos essa vibração e verdade na fala final do ator/bailarino, que emocionado deixa claro que estamos diante de um sonho que se torna realidade a partir de muito estudo e pesquisa. Pelo espírito desbravador de Guilherme Conrad sinto que irar passar por inúmeras transformações seu trabalho e da mesma forma que desperta essa emoção sobre ele, também irar acontecer o mesmo com seu público.

 

Foto: Amanda Gatti

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