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Maça Podre

June 28, 2019

 

A Cia Embróglio escolhe um texto de Alejandro Robino para trazer novas reflexões ao público. O dramaturgo argentino cria uma atmosfera onde a personagem de um político acaba enfrentando um dia épico em sua vida. O político acaba se vendo encurralado diante das suas escolhas, após ter tomado decisões que colocaram sua épica, moral e amor em questão. O autor Robino tenta trazer nessa narrativa observações sobre corrupção e reflexões importantes para o homem, que pode se ver em situações semelhantes ao do protagonista  dependendo dos caminhos que tomar.

 

E com esse contexto a Cia Embróglio resolver escolher a linguagem de metáforas e licença poética na construção da narrativa para dialogar com o público. Somos tomados por essas expressões desde o início do espetáculo que é tem em cena três atores – Eduardo Osorio, Gustavo Bieberbach e Ricardo Goulart. Juntos eles desenvolve esse dia decisivo na vida do político, que se divide em três períodos: pela manhã o assessor tenta encontrar as palavras certas para avisar o seu chefe que houve o vazamento de informações; depois, à tarde, o político se encontra no apartamento do seu amante, que tenta expressar seus sentimentos pelo companheiro; e na noite se vê sem rumo na beira de um rio na companhia de um velho amigo de infância.

 

E essa costura se dá com três momentos definidos na cena e cada qual tem um protagonista. Como se cada período do dia tivesse um voz tentando encontrar as palavras certas para apaziguar, ou consolar, ou entender os fatos que estavam ocorrendo. O roteiro se torna intenso ao querer trazer a verdade do homem e sua ganância, a cegueira do poder e o desejo do sucesso. Essa autenticidade é escancarada de uma forma curta e grossa pelo dramaturgo Alejandro Robino que chega a doer por dentro.

 

O texto chega ao nosso conhecimento através de metáforas e licença poéticas que se repetem inúmeras vezes na cena, chegando a ser exaustivo a sua compressão. Assim a linguagem abordada na cena distância nossa observação para o texto e a atuação dos atores. A proposta se torna bela no contexto, só que a repetição dela acaba sobressaindo outros pontos do espetáculo. Somos surpreende no terceiro momento, quando a metáfora e a licença poética saem de cena e os atores ganham o palco, nesta hora se dá o encontro entre o político e o amigo de infância. O diálogo entre o pescador e o protagonista acaba tirando o público do conforto da poltrona e fazendo nos aproximar da angústia do político.

A Cia Embróglio usa da poesia para permitir que o público absorva as colocações desse texto e reflita sobre as escolhas e os atos do ser humano. O ator Gustavo Bieberbach vai construindo aos poucos a sua personagem, como se caminha-se a passos lentos, vai permitindo o conhecimento das camadas do político. Até chegar ao momento final da história e se deparar com o acaso, que para ele, torna-se uma oportunidade de mudar a sua vida. A fluidez dessa construção é sensacional, Bieberbach se destaca neste momento pela forma orgânica e surreal na criação da personagem.

 

Já o ator Eduardo Osorio transborda atuação e verdade em cena, assim se tornando magnífico quando constrói dois personagens. Mostrando que essa familiaridade com o palco faz com que ele consiga organicamente fluir além da técnica de atuação e fazer com que o público vivencie a angústia de um pai de família e também a maresia do pescador apaixonado. Neste momento onde ao encontro dos atores – Bieberbach e Osorio - é como se os personagens começam aquecer o palco e abraçar a platéia que se move nas cadeiras para se aproximar dessa discussão recheadas de lembranças e questionamentos. E o desfecho desse encontro simplesmente foge do cotidiano.   

 

Os argentinos têm a coragem de colocar o dedo na ferida, sempre querendo mostra os fatos reais da sociedade e do ser humano. Essa transparência muitas vezes desagrada e incomoda a maioria da população que não consegue compreender seu próprio reflexo. Agrada ver que Alejandro Robino teve a coragem de escrever as palavras antes que sufocasse seus pensamentos. Sem rodeios ele cria Maça Podre, que traz a luz do conhecimento de todos o reflexo do homem que tenta manipular a vida ao seu favor. Assim nos permitindo ver que não temos o poder em mãos e que tudo isso não passa de ilusão e no final sempre estamos diante de onde tudo começou, - a simplicidade da vida e das escolhas.

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