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Expedição Monstro

June 12, 2019

 

O teatro infantil é a porta dos estímulos e sensações que dialogam diretamente com as crianças. Alguns diretores só utilizam a magia e a ludicidade dos palcos para encantar as crianças e acabam ficando no entretenimento. Dessa forma desvalorizando a produção do teatro infantil e a capacidade que ele exerce no encontro com seu público. São poucos os momentos onde conseguimos estar diante de peças infantis de qualidade e encontrar uma direção e atores engajados a estarem nesse universo é encontrar nessa oportunidade uma forma de exercitar seu ofício. "Expedição Monstro" é um desses espetáculos que está nessa lista de grandes produções preocupadas em levar um projeto de qualidade ao público. Talvez essa peça se sobressaia na sua área, pois a um elemento chave nesse projeto que é a direção é criação de Matheus Melchionna. Um ser com alma de criança e que soube trazer para os palcos um diálogo rico de sensibilidade e encantamento, assim criando um novo lugar para qualquer um morar.

 

Expedição Monstro desenrola um enredo totalmente do universo infantil, sendo um texto para as crianças. A exploração de um grupo de amigos que se reuniu na mata para acampar e acaba encontrando um portal e parar no mundo dos monstros. E neste momento se inicia a magia deste espetáculo, os monstros que sua linguagem de comunicação não são por palavras, mas sim sons. Sons e gestos, caras e bocas, sensações e vontades norteiam esse grupo de monstros que ao encontrar as crianças logo de cara fazem amizade. Claro que não é tão simples assim essa aproximação, de início a um estranhamento entre eles mas depois tudo se resolve. E lindo de ver que o medo e vencido pelo diálogo e por se colocar no lugar do outro, e sem julgamento da forma ou jeito, as crianças viram amigas dos monstros sem trazer aquela carga social e preconceituosa.

 

O espetáculo caminha pelas vertentes das crianças trazendo o lado infantil e inocente do ser humano. Assim sendo uma peça onde a criança poderá explorar seus medos, alegrias, sonhos, também irá rir, se emocionar, cantar e se divertir. Mas mais do que isso, ela se reconhecerá no palco, talvez em alguns momentos como uma das personagens crianças e outras vezes de monstro. Pois os monstros são quase uma representação dessa inocência e dos caminhos da infância. O que deixa ainda mais belo nesta peça é a forma que os atores entrar e se dão de corpo e alma aos papéis. Se vê que ali eles estão exercitando o seu lado mais moleque e divertido do mundo. Os atores que representam as crianças – Ana Carolina de David, Bruna Casali, Lauro Fagundes e Mauricio Schneider -, viram crianças e diante dos nossos olhos vimos um grupo de amigos que querem explorar o mundo e viver e reviver grandes emoções. Já os monstros, esses bem das almas e dos corações desses atores, que nos fazem ver os seres mais encantadores do universo. Chegando a um momento onde nos perdemos na capacidade de entender o que é real ou fantasia. Deixando nosso imaginário criar esse universo onde mora os monstros e poder sentir nos nossos lugares essa aventura especial. 

 

Mas o que é encantador devido a sua atmosfera e enredo se torna brilhante quando nos deparamos com um dos personagens ser o Planck. Planck é um pedaço de "madeira" que se torna o "amigo" inseparável de Lucas (personagem de Lauro Fagundes). E esse amigo imaginário ganha destaque na história, primeiro por sua simplicidade e pelo cuidado que os outros tem com ele. Pois as crianças acreditam de fato no Planck e na sua existência. E ele se torna objeto de desejo dos monstros assim que os conhecem também. Como inicia uma intriga para quem vai ficar com o amigo imaginário, a chefe do grupo de crianças tem a solução é daí a confusão só aumenta. Essa criação desse personagem trás uma graciosidade para o espetáculo é o torna mais especial. Se parar e observar cada coisinha da peça verá que tudo parte do universo infantil e dessa magia que se mistura com inocência e expressão da criança.

 

Outro personagem que acaba sendo um destaque na obra e a Monstra Cantora (feito pela atriz Danuta Zaghetto). Como falei anteriormente os monstros se conjunção por sons e expressões. Existe a Monstra que se comunica através de canções, ritmos, notas, não sai palavras verbalizadas da sua boca, só sons. E os momentos que ela aparece e se comunica se torna brilho nos olhos das crianças que acabam se emocionando com sua presença. Já o Monstro Max (representado por Ander Belloto) que quer tudo do seu jeitinho, apesar do seu temperamento, acaba assustando algumas crianças da platéia, mas seu jeito levado se agrada muitos pequenos que ali encontram a travessura em forma de monstros. E por último a Monstra Esperta (interpretada por Renata Stein), toda atenciosa e esperta é a Monstra que abre e fecha o portal para o mundo dos monstros. Sem contar que ela ajuda a solucionar um problemão, ela descobre o que está causando a transformação das crianças em monstros. Tudo isso e muito mais se passa neste espetáculo gostoso de se ver.

Essa obra tem uma livre inspiração num dos livros mais especiais da Literatura Infantil - Onde Vivem Os Monstros de Maurice Sendake Spike Jonze. Sou fã dessa obra e do filme que foi lançado em 2009, mas mesmo assim consegui entrar nessa peça é ver com outros olhos "Expedição Monstro" é não recordar as outras obras que serviram de inspiração. Isso se dá pela construção e a alma do espetáculo. Pois não estamos diante de uma releitura ou de um espetáculo feito sem cuidado e carinho. Expedição Monstro ganha  destaque pela sua totalidade e energia que provoca no público que sai do teatro tendo um choque ao se deparar com a realidade. Somos profundamente tocados pelo sonhos e atuações de cada ator desse projeto e sentimos a alma e o amor de todos envolvidos. Que Expedição Monstro possa percorrer inúmeros caminhos levando a crianças e adultos a oportunidade de experienciar a inocência e a imaginação novamente, pulsar os corações e emocionar as almas que se esqueceram um dia que foram crianças.

 

Foto: Adriana Marchiori

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