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Macbeth e o reino sombrio

June 10, 2019

 

O teatro sempre foi palco para dialogar com temáticas sociais e reflexivas. muitas vezes fazendo com que o foco central vá para bandeiras levantadas nas cenas e deixando o exercício teatral de lado. O espetáculo "Macbeth e o reino sombrio" brilhantemente engrandece a raiz do teatro ao trazerem a essência circense para dialogar com um texto de William Shakespeare. Fiquei deslumbrado ao ver o teatro e a expressão sendo o foco principal, que dela se conta uma história que chega até o público e toca cada espectador. O espetáculo tem uma grandeza que no final o reconhecimento virá calorosos aplausos e manifestações de carinho. Isso se dá porque o Coletivo Órbita trás como veia condutor do espetáculo o circo e resolve fazer uma celebração, um ritual de corpos, gestos e imaginação. Movendo nosso faz-de-conta somos despertador a exercitar a nossa criatividade através de um cenário lúdico. Este cenário que se destaca com a atuação dos atores que brincam com seus corpos e objetos cênicos que permeiam o cotidiano e ilustra a história. E dessa forma vemos renascer no palco a alma do dramaturgo William Shakespeare e a grandeza do teatro. 

O teatro está vivo na alma de Camila Pasa, João Pedro Dicarli e Rodrigo Waschburger. Esses atores mostrando a sua forma de observar e fazer teatro, construído um espetáculo que resolve conquistar o público a experiência a vivência do diálogo. Desde o início percebe-se o cuidado na forma de dialogar com o público, os atores entram em cena é fazem exercícios corporais e com malabares para o público acostumar os olhos e as sensações. Pulos, piruetas e um sobre o outro, eles vão criando outras formas de colocar seus corpos em cena para representar e expressar o que gostariam. Desse modo somos encantados com os corpos em momentos e o modo que os atores manipulam os objetos. Mas eles vão além! A amor e verdade nesses jovens que sabem a responsabilidade desse ofício. E lá vem eles a cada nova cena apresentando as personagens de formas inusitadas e diferentes. Os corpos de cada ator, para representar mais de um personagem, cada um, mudam pequenas coisas na sua forma de de expressar e na voz. Só que quando essa pesquisa de cada personagem se junta com o todo acaba conquistando a todos ao verem a simplicidade da atuação e expressão desses atores. 


Para ajudar nessas ilustrações de cada personagem da história, eles criam através de objetos do cotidiano um novo uso para serem objetos cênicos. Assim estimulando nossa imaginação que embarca nessa aventura e deleita-se na história. Não a como não se admirar com o zelo da direção de João Pedro Dicarli ao escolher o riso como vertente deste projeto. Trazer a inocência do circo para o texto de Shakesperar é popularizar a essência dessa obra e permitir o conhecimento que a nas entrelinhas desse texto. Como o próprio título do espetáculo diz "e o reino sombrio", a história do jovem Macabeth é sombria e carregada de inveja, anseio e poder. Esses valores que mexem com a ética e postura do protagonista. Esse desejo que cresce com os anseios da sua esposa - Lady Macbeth - que também quer o poder e juntos acabam tomando atitudes egoístas. E o pior é que tudo isso ainda faz com que Macbeth, tombado pelo seu desejo, decida o final da história do seus amigo - Banquo. Quando Shakespeare escreveu essa peça não foi para provocar risos em cada um, mas para provocar repugnância dos nossos próprios atos e anseios. 


Nas mãos do Coletivo Órbita a peça se mantém na mesma essência, a tanta consideração com o texto que eles preservam a fala original. Claro que temos algumas adaptações e até novas frases que complementam o contexto e o público escolhido. A peça é feita para o público infantil o que torna grandioso e que nenhum momento se encontra uma peça infantilização. Pelo contrário uma peça lúdica e cheia de emoção onde as crianças embarcam na proposta e caminham junto, lado a lado com cada personagem. Está conexão fica clara quando se vê as crianças desenvolvendo um diálogo com as personagens.Como se todos estivessem no mesmo plano, as crianças tentam participar de cada cena, não só com risos e pequenas colocações l, mas de forma expressiva. Todos se tornam amigos nessa peça que aproxima a criança do enredo e leva eles a brincarem de faz-de-conta. 

 

Isso talvez aconteça devido a criatividade na exploração dos objetos cênicos, como por exemplo escadas que representam diversos ambientes da peça. As escadas conseguem ser manipuladas e flexíveis, ganhando outros formatos, devido a engrenagens que possuem. A brincadeira com elementos do circo como objetos de malabares, malabarismo com o corpo e a ludicidade presente de outras formas, como exemplo do balde que virá capacete de soldado, canos que virá galhos de árvores. A inúmeras ilustrações apresentadas neste espetáculo, outra forma delicada de construir as personagens e seu "figurino". Para continuar nessa propostas do "faz-de-conta", as personagens têm uma caracterização peculiar. Rodrigo Waschurguer quando representa a personagem Macbeth, utiliza um suspensórios vermelho e coloca na sua atmosfera o poder e grandeza de um futuro rei. Já João Pedro Dicarli trás toda a inocência e diversão ao colocar uma faixa escura na cabeça e dar vida a Banquo, amigo de Macbeth. E Camila Pasa  desperta o anseio de sentir o gosto da realeza ao colocar suas luvas vermelhas e ser Lady Macbeth. O mais impressionante é ver que todos eles retornam inúmeras vezes na cena fazendo outros personagens, com a mesma proposta, poucos elementos e uma atuação maestral.


Do início ao fim você percebe uma generosidade no palco, pois esses três atores vem com o propósito de contar essa história sem se colocarem em primeiro lugar. Nenhum momento você encontra o ator querendo aparecer e sim a preocupação de ser instrumento do teatro e engrandecer as palavras de Shakespeare. Por causa disso as crianças se deslumbram com o espetáculo é entendem as entrelinhas e essência da peça é não ficam só no superficial. E os adultos, acabam se emocionando ao estarem diante de um espetáculo que os fazem refletir sobre as escolhas e desejos da vida. Outra coisa que iram encontrar nessa peça é a interação entre a curiosidade da criança em saber algumas palavras desconhecidas por eles no texto. E nessa hora o adulto de uma forma educada acaba explicando o conceito é alguns momentos do espetáculo aos pequenos. Esse diálogo que se dá na platéia é emocionante, pois naturalmente o adulto tem paciência para lidar com as novas descobertas da criança e deixa fluir esse momento. Coletivo Órbita está com sabedoria trazendo à luz dos palcos o teatro e sua essência. Transbordando de maneira compreensiva a raiz do teatro e a encenação e ainda educando um público a vivenciar uma beleza peculiar. Que esse amor pela arte sempre seja o motivador dos seus corações e projetos e que vocês possam ir aonde o povo está é fazer seus olhos brilharem novamente ao apreciarem a arte de atuar.

 

 

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