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Hotel Mariana

 

 

A peça Hotel Mariana retrata em cena a observação da simplicidade da vida e das cicatrizes de um povo. O público é colocado diante de histórias que provam a nossa ignorância diante da correria de todos os dias na busca de ilusões. Somos arrebatados para uma reflexão dos valores corretos da vida e de convívio social, a partir das colocações de pessoas que tiveram suas vidas arrancadas brutalmente. E tudo muda a partir do rompimento da barragem em Mariana que leva seus sonhos construídos ao longo dos anos. Ouvir e saber que cada frase daquela história, apresentada no 14º Festival Palco Giratório, não é fictícia e sim real, e ter a consciência da amorosidade e esperança que esse povo carrega é transformador. Hotel Mariana mostrou-me o quanto sou perverso em acreditar num sistema e conviver muitas vezes achando que a dificuldade faz parte do crescimento pessoal. Nunca vivenciei algo intenso como esses moradores dos distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, entendo que depreciação da maioria das pessoas e pura futilidade. 

 

Hotel Mariana trás relatos verídicos dos moradores de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo que sobreviveram ao dia 05 de novembro de 2015, quando a barragem estourou e veio com tudo sobre suas residências e vidas. Os atores escutam os relatos nos fones de ouvidos e simultaneamente trazem ao conhecimento do público, dando voz a cada personagem. Alguns deles conseguem entrar na essência dos relatos e nos levar a ver a personagem e suas aflições diante de nós, como se aquela pessoa estivesse ali, conversando com um amigo ou um vizinho. Mesmo tendo conhecimento do dos fatos e até visto algumas entrevistas, algo soa diferente quando estamos no teatro. Acredito que o amor por esse espetáculo, por deixar vivo este fato e não querer calar o ocorrido ou lembrar as pessoas da simplicidade humana. A peça se torna especial para todos que ficam diante de um cenário com inúmeros objetos preso na lama, que estão pendurados no fundo do palco, também se encontra em cena a imagem da Nossa Senhora e de uma televisão coberto de lama. Os atores com roupas simples e com sotaque na voz, conseguem naqueles minutos mostrar que existe esperança na humanidade.

 

Um rapaz que deixa de pensar na sua segurança e resolveu ajudar a resgatar vítimas, ficou de um lado para o outro com barro por todo corpo, confundido com alma penada. Entre risadas e orgulho da sua atitude, o rapaz conta para todos a sua coragem em pensar no próximo e auxiliar a tantas pessoas. Tanto que no final do dia e que ele lembrou-se do seu irmão. A senhora que viu a lama e a água passar, pensou na escola e nas crianças que deviam estar na hora de lanche, se eles conseguiram se salvar. Também tem a filha que todos os dias vai visitar seus pais, que atualmente estão no Hotel Mariana, e lá ela tenta descobrir quais serão o auxílio que iram ter, pois seus pais perderam tudo. E a irmã que conta como a lama arrastou a sua casa, levou toda a sua família e só ela sobreviveu. Esses e outros relatos são abordados em cena pela Cia da Palavra que entrar no palco com fones de ouvidos e dispositivos que carregam esses relatos. Juntos iniciam a escuta dos relatos de todos os envolvidos e cada história, um ator ou atriz da voz a uma personagem desse local. E tudo isso só se dá devido a sensibilidade da Cia da Palavra e do direção de Herbert Bianchi que decidiram dessa forma mudar o mundo. Dois momentos que nunca saíram do meu coração, o primeiro da entrevista do prefeito relatando que todos os moradores tem uma dívida de gratidão com o povo brasileiro, devido a todas as doações e cuidados e auxílios que tiveram. E o segundo momento e de um idoso que canta uma linda canção, uma das letras e vozes mais puras e verdadeira, um clamor simples que vem do seu coração.

 

A simplicidade rege tudo. E ela está a sempre desse espetáculo que traz a simplicidade e a grandeza da humanidade. Só que com o tempo nós somos distanciados dessa simplicidade natural e quando percebemos estamos cheio de valores corrompidos e distante da essência.  Só que então, quando decidimos parar e entrar num teatro para ver uma peça podemos reencontrar a simplicidade humana e nos deparar com a pureza da humanidade. E esse encontro acabou mexendo com a visão de mundo e do outro. A cada novo relato que escutava, reverberava como um encontro as origem da vida, a verdadeira observação do dia – a – dia, não escutávamos somente a lembrança de um dia fatídico, mas ouvíamos a mudança da vida de todos. Os dias nunca serão os mesmo, Mariana (MG) nunca terão a mesma cor, os sorrisos, as brincadeiras, os lamentos e as orações. A peça Hotel Mariana despertou um fruto de compaixão pela humanidade, lembro-me que entre uma história ou outra, queria poder segurar a mão da pessoa que estava ao meu lado, na platéia, com um gesto de carinho. Ouvia-se lágrimas e pessoas tomando fôlego por estarem diante de ser humanos que tem a vida simples e souberam com suas poucas palavras transformar nossas almas.

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