©2018 by Crítica e Diálogo. Proudly created with Wix.com

A Fome

 

A grandeza de uma temática pode ser totalmente modificada pelo ponto de vista do criador. A Fome trás a voz da mulher, que além de intensa e voraz, denuncia o anseio, o desejo, o libido e o apetite humano. Inúmeras histórias trazem ao palco chocantes realidades que mesmo sendo narrativas “fictícias” estão próximas do dia-a-dia. O verbo dá início a essa construção narrativa que nos leva a caminhos sombrios e faz conhecer uma mulher, sem identidade, mas que suas escolhas, ou melhor, as escolhas que a vida faz, lhe construa o que de fato é. Chegando próximo a uma denuncia de como a mulher é tratada pelo homem, A Fome mexe nas entranhas de muitos e incomoda nosso olhar ao nos depararmos com tais realidades. E acredito que há um forte reconhecimento da mulher neste diálogo emocionante e libertador que a atriz Sissi Venturin trás para a cena.  

 

Quando vi na programação do 14º Festival Palco Giratório que haveria uma peça com a direção de João de Ricardo, entendia que iria estar diante de um espetáculo com temática ácida e irônica. Um olhar peculiar do mundo e da existência humana. Uma celebração ao teatro e o ofício do ator, o corpo como exploração da narrativa e sua presença em cena, sempre engrandecendo o fluir do enredo. Essa fidelidade vem de uma mente que sabe olhar o outro lado do universo e se aproxima de um ritual entre corpo, expressão, mente e reflexão. A união entre o diretor Ricardo com a atriz Venturin é primordial para a realização dessa peça que necessitava dessa observação.

 

A Fome traz a concretização que um projeto só se torna grandioso quando se tem uma direção que se debruça na sua construção cênica e numa atriz que se envolve de corpo e alma no espetáculo. Fiquei deslumbrado com a atuação de Sissi Venturin que me emocionou ao se colocar nesta personagem e trazer todas as conseqüências dessa caminhada tão insana e aflita. Claro que há muitos momentos onde somos arrebatados pelo riso, da graça que a personagem vê a vida e toma suas decisões. É um absurdo ver a transformação que a personagem vai passando no decorrer da narrativa e situações que trás para nós, desde a fome insaciável pela vida, até o desejo da fome sexual e carnívora pela carne do homem.

 

Uma das coisas que agradou neste espetáculo foi o tom de voz da atriz. Canto da sereia que chega envolvente nos ouvidos e me faz querer ouvir mais e mais, saber de suas histórias e me deixar atento perante sua existência. Buscava ver os momentos cômicos do espetáculo que tornavam mais bela sua voz e atuação, pois a postura da mulher insana, louca e depravada é tão real que mostrar o quanto a loucura faz parte da mulher e do homem. Produzindo questionamentos sobre as relações amorosas e o modo que lidamos com o outro e ainda mais com a mulher e seu corpo. Vimos nessas narrativas o abuso e a posição do homem diante da paranoia da mulher quando o ciúmes toma conta.

 

A Fome traz tantos elementos e temáticas gostosas para serem observadas e logo depois discutidas e refletidas. A forma que tudo é apresentado conseguimos ver a intenção e forma e respeito da atriz e do diretor diante de tantas narrativas sensíveis e necessárias nesta atualidade. Próximos a um Nelson Rodrigues chegamos a conhecer no palco uma peça que aponta o físico da humanidade que muitas vezes rege os nossos caminhos. Dessa forma mais que uma entonação para nossas raízes é um modo de vermos como somos e nos reconhecer nessas histórias e compreender o que faremos no futuro.    

Please reload

Our Recent Posts

November 11, 2019

November 1, 2019

October 21, 2019

Please reload

Archive

Please reload

Tags

Please reload