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Das Cinzas Coração

 

Delicado estar prestigiando Das Cinzas Corações, na Sala Álvaro Moreira, no 14º Festival do Palco Giratório e testemunhar a grandiosidade de escolherem a sétima arte como enredo para seu projeto. Usando do artifício de áudio visual, se vê em cena um trabalho transformador e provocativo, que através do bom humor e do encantamento da performance consegue trazer até o público questões de relacionamento e a posição da mulher, dentro da relação e socialmente. O palco vira uma grande tela de cinema e a magia acontece, os atores e o cenário com múltiplos tons preto e branco, são o lugar perfeito para uma narrativa muda. A comunicação se dá por gestos, como se estivéssemos vendo um filme de 1920. A platéia se envolve tanto no enredo que se manifesta muitas vezes ao se deparar com o cotidiano do casal e observando as dificuldades que a esposa enfrenta.

 

Desde o início o público é convidado a embarcar nessa viagem e deliciar-se com a peça. O cuidado em levar os convidados para dentro dessa proposta é vivenciá-la e se torna a chave importante para o espetáculo. Pois desde o início se sentimos a vontade a estar prestigiando e querendo saber o que iremos ver. E já de cara, nos créditos iniciais que são projetados, somos levados a rir e se divertir. Quando a projeção se amplia e pega todo o espaço cênico a diversão começa. A surpresa conduz todo o espetáculo que te leva a presenciar malabarismo, palhaçada, diversão, acaso e uma comunicação direta com o público. Não há como não ver a graça nas coisas mais comuns do dia-a-dia do ser humano. E o cuidar de um lar, das tarefas domésticas podem nos levar a ter dores de barriga de tanto achar graças das situações que nos metemos.

 

A narrativa nos apresenta esse casal que a mulher se torna submissa de seu marido e deve fazer as tarefas do lar com êxito, se não há punição. Mesmo que essa bronca seja só verbal, ainda assim se tornam ofensivos e praticam maus tratos. Toda a compreensão dessa relação só se dá ao entendimento do público, porque há um cuidado extremo com a manifestação das personagens e suas ações em cena. Jéferson Rachewsky se debruça numa direção impecável e detalhista ao conduzir esse trabalho e lapidar de uma forma inteligente. Pois não se torna um simples gesto, performance ou diversão, se tem a presença de uma base sólida o enredo, as metáforas e a ações dos personagens. Fazendo que toda a história tenha alma e vida, as personagens conseguem ampliar a essência da suas ações para o todo, deixando assim a história se destacar amplamente. A escolha e o trabalho feito com cada elemento cênico é de um gozo só. Somos presenteados com essa proposta circense que se mistura com cinema e provoca sensações e emoções únicas. O público tinha reações que muitas vezes só se vê em circo ou no escuro do cinema. A liberdade de sons saírem da boca das pessoas se dava no fluir que vinha das cenas. Onde a comunicação visual dos atores era conectada com o público.

 

Valquiria Cardoso é a alma e vida dessa peça. Com um excelente domínio corporal e expressivo consegue levar nossa mente criar as legendas dos seus pensamentos através das suas ações. Como se fosse tomada pelo enredo e situações que a sua personagem – Aurora – vive, Cardoso permite usar seu corpo e sua alma para dar vida a essa mulher. É quase como que um grito de desespero tentasse sair dessa vida que não agrada ao lado do marido. A atriz se destaca pela sua expressão facial que muitas vezes me despertava uma satisfação em vê-la em cena e presenciar o seu potencial.

 

Acredito que todo esse cuidado e inovação para tratar de temas tão necessários, o Quimera Criações Artísticas & Teatro Ateliê conseguiram tanto provocar nas mulheres, quanto nos olhos, novas reflexões. Pois foi um dos poucos trabalhos onde vi uma preocupação em colocar o homem no foco e explicar gentilmente das suas atitudes e do seu poder dentro de uma relação. Senti que Das Cinzas Corações trouxe um equilíbrio para a relação do homem e da mulher conseguindo um resultado inesperado. Sempre acreditei que o riso é transformador, ainda mais quando é feito com tanta verdade e produz o reconhecimento na cena e que nos leva a questionamentos transformadores. A junção dessa brincadeira entre o riso, o circo, cinema e teatro, é brilhante! Que nossas almas possam se renovar com leveza e amor, como se vê nesta peça tão atemporal e desbravadora.

 

Foto: Claiton Dornelles 

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