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Chapeuzinho Vermelho

 Foto: Adriana Marchiori

 

O Projeto Gompa brilhantemente protagoniza um das versões primordiais do conto de Chapeuzinho Vermelho. Criando um espetáculo onde permeia várias camadas da história, e ainda tendo a coragem de trazer aos olhos do público uma versão que se aproxima da original. Com isso, mexendo no imaginário do público e ainda explorando sensações que ficam marcadas na memória de todos. Camila Bauer dirige poeticamente a composição do espetáculo assim destacando a sua delicadeza das narrativas e exaltando a literatura e aproximando o observador do conto, do teatro e da ludicidade. Entendendo a base dos contos maravilhosos ou domésticos, assim são os chamados "contos de fadas". O espetáculo Chapeuzinho Vermelho vem para provocar o ser humano e desenvolver suas reflexões a partir do que viu e ouviu. Deixando o conto caminhar por si só e permitindo o público compreender da sua forma e as camadas que consegue visualizar a partir do enredo apresentado. Essa façanha acaba provocando questionamentos básicos, como por exemplo, se esta é uma peça infantil ou não?  

 

Chapeuzinho Vermelho nunca foi uma história para entreter alguém. Sua primeira versão escrita se deu na França (1697) e já foi nomeada como "A História da Avó". Se ler esse conto verá que o climax é obscuro e pesado. Muitas vezes chegando ser difícil de digerir a sua composição, só que a muitos e muitos anos atrás os contos tinham outra finalidade do que atualmente. E nenhum momento apresentavam leveza e o famoso "felizes para sempre". Por isso, acredito que o Projeto Gompa foi excelente ao trazer esse olhar na atualidade onde todos devemos lembrar e reviver questionamentos importantes para a formação humana. Se não compreendemos de fato que o Lobo é mau e que a inocência da Chapeuzinho, que é de uma criança, são fatos na sociedade, nunca entenderemos que o perverso está ao nosso redor e que a inocência faz parte do caminho da vida. E que devemos estar sempre atentos e dispostos a ensinar e aprender diariamente. O espetáculo ilustra perfeitamente essas questões e faz com que cada um seja levado para minutos onde o faz-de-conta tome conta do corpo de cada um. Chapeuzinho Vermelho produz essa sensação devido à forma de condução do narrador, personagem de Guilherme Ferrêra, que sabe usar muito bem o poder da voz. Sendo a alma da história, o contador conduz com sua voz o público a caminhar pelo enredo e vivenciar cada momento da aventura da menina que resolve levar um pudim a sua avó. O narrador está praticamente o espetáculo inteiro em cena, pego-me observando e atento a suas colocações, mas quando vejo meu olhar se perde e estou observando as outras personagens. Só que a voz do narrador nunca desconectada, mas a presença dele se torna quase invisível na cena, fazendo com que algumas vezes lembre dele e o busque para novas observações. Particularmente a voz e o tom desenvolvido por Ferrêra remete a voz que sempre idealizei para os narradores de histórias. 

 

Outro fator que despertou minha atenção nesse encontro foi que assisti a peça juntamente com estudantes de várias faixa etárias. Assim conseguindo sentir as sensações deles ao verem os famosos personagens em suas formas mais distintas e conceituais. A proposta do espetáculo desde o início te conduz a sempre estar receoso e atento. Enquanto esperamos o início do espetáculo a platéia é iluminada por luzes que são conduzidas por uma trilha sonora que remete a um temporal. Em alguns momentos ouve o som de trovões, e a luzes piscam ilustrando esses barulho e raios, deixando o público ouriçado. Com falas pontuais Chapeuzinho e sua mãe vem com a proposta de estarem se comunicando e dialogando com o público através de expressão corporal. Excelente trabalho feito pelas atrizes – Laura Hickmann e Fabiane Severo -, que acredito terem uma familiaridade com a dança ou serem bailarinas. Pois a composição corporal e seu trabalho em cena é fantástico, e quando as duas se juntam num só movimento é esplêndido. Essa brincadeira se mistura no fluir do cenário que é uma estrutura de metal e ganha uma conotação diferente a cada momento. 

 

O Lobo! O despertar dos piores medos das crianças. Ele aparece sorrateiramente no palco, mesmo o foco não estando nele, as crianças vêem a sua presença e logo se inicia um burburinho entre elas e seus corpos não conseguem parar quietos nos lugares. Entre medos, cochichos e gritos se ouve a voz do Lobo e a sua presença em cena se transforma no centro das atenções. O Lobo vira a peça principal desse espetáculo devido a sua composição corporal e o figurino que remetem a existência de um animal em cena. Henrique Gonçalves que conduz essa personagem que é de conhecimentos de todos, nos leva a vivenciar algo marcante para toda a existência. O Lobo Mau tem a malícia do conto original, a forma de animal, o desejo físico e biológico e a esperteza perversa de um carnívoro. As metáforas colocadas em cima dessa personagem são de provocar a ética de qualquer pessoa. Tanto que se tornou discussões de séculos sobre a postura das suas atitudes e na atualidade em relação a essa peça se ela é ou não para o público infantil.

 

Chapeuzinho Vermelho do Projeto Gompa me faz ver que existe muito mais do que só o diálogo mais conhecido dos contos maravilhosos. Passa para segundo plano essa conversa entre a protagonista e o lobo mau, ao estar diante do conto todo e da sua forma apresentada. Conseguimos ver a amplitude da história e sentir de fato as entrelinhas desse conto conhecido por todos. Agradecido por vivenciar sensações e reviver lembranças memoráveis. E se torna um alívio o término do espetáculo pelo seu reconhecimento na alma humana e pelo momento mais satisfatório das crianças. No final o Lobo retorna à cena para os agradecimentos e a Chapeuzinho retira a sua cabeça animal assim revelando o rosto do ator. E o espanto das crianças ao perceber e reconhecer o rosto do ator é imperdível. Esse é o caminho dos contos domésticos, de simplesmente serem vivenciados pelo homem, deixar que provoquem essas sensações e suas reflexões. Que mexam no profundo das nossas almas e deixem explodir esses sentimentos que todos carregamos e que possamos lapidar de forma natural e saudável a nossa visão de mundo e postura ética. Que possamos ser agraciados mais vezes com encontros assim entre literatura, teatro e público. 

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