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Traga-me a cabeça de Lima Barreto

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Vivo! Senti-me vivo ao ver Hilton Cobra em cena. Simplesmente a força da sua voz que fluía no Teatro do Sesc e fazia sentido para minhas reflexões, quanto para minha alma. Como se acendesse novamente a esperança na humanidade, Hilton traz com sabedoria a personagem Lima Barreto e sua história. O palco recebe a humildade de um simples cidadão que soube criar obras literárias magníficas com coerência em suas colocações e reflexões. E se torna um alvo de julgamento e preconceito devido a sua cor, questionam sua classe social e sua história. Só que o Barreto usa sua sensibilidade para ter a atitude certeira neste julgamento, dando um nó na cabeça dos especialistas.

 

Hilton Cobra mostra o quanto o ator deve estar preparado para estar no palco e acreditar de corpo e alma no texto que defende em cena. Pois o palco não é só local de exibicionismo e engrandecimento do ego e sim o local de comunicação e expressão. E foi isso que de fato aconteceu na noite do dia 07 de Maio, no 14º Festival Palco Giratório em Porto Alegre. Com maestria vi um ator humilde e que soube desenvolver um diálogo deslumbrante, carregado de poesia e cultura nacional, mas com o bom popular brasileiro ligando a suas colocações. A cada frase que saltava da boca do ator se tornava um novo respirar na platéia, contagiados com a simplicidade na atmosfera que vinham dessa peça, o público se sentiu muito a vontade e recebeu com muito amor cada momento desse encontro.

 

Somos abençoados em ver a agilidade do ator, em perceber que usou poucos elementos no palco, mas usou o seu corpo, sua voz e seu olhar para se comunicar. Entre rodopios, canções, poesia e narrativas, encontrava uma dança entre ator e enredo. Possuído pelo amor a esse escritor pouco conhecido pelos brasileiros, Hilton dá vida e voz com muita sabedoria. Ficava admirado a cada novo trecho, ele iniciava com uma nova energia e entrega, nos levando a este percurso e desbravando todos os pontos de vistas de Lima Barreto. Com uma celebração ele se despede de nós eternizando esse autor e ainda dizendo com muito sabedoria que não se importaria se a humanidade não o conhecesse ou soubesse das suas obras.

 

E essa atmosfera só pode ser absorvida devido à alma desse artista tão popular e entregue a arte. O mais lindo foi ver que mesmo levantando sua voz na peça e logo no término colocou sua opinião em relação a atualidade, mas nenhum momento deixou de ser sábio. O espetáculo é cheio de argumentos de grandes figuras da história do nosso país, mas ao mesmo tempo percebe-se que suas palavras soam como desculpa. E perceber essas colocações apresentadas, mostra que ainda vivemos da mesma forma e deixamos ser conduzidos por um grupo de pessoas. Lembrei-me muitas vezes de Elis Regina, quando ela diz “Ainda somos os mesmos / E vivemos como nossos pais”.

 

É triste ver que Lima Barreto só foi mais um que sofreu em cima da ignorância e arrogância de algumas pessoas, que estão em destaque na sociedade. Mas será mesmo que estão com essa evidência e poder? Será que suas colocações são as coerentes mesmo? A peça te provoca a enxergar o outro lado da moeda e ver que talvez a sua forma de perceber o mundo não é errada. Se produzimos reflexões coerentes conseguimos ter observações plausíveis para argumentar com um mundo totalmente desequilibrado.

Agradecido por receber tanto neste breve espetáculo. Honrado em ver que a humildade e o conhecimento e a observação de mundo pode ser o caminho da mudança humana. Que a elegância e bom argumentos podem ser o melhor caminho de discussões entre visões diferentes e que se for colocado um pouco de loucura e um pitada de álcool pode se tornar memorável. Compreensível em ver que no resultado final desse julgamento e análise do potencial do escritor se diga que a inteligência se apossou de um corpo e alma medíocre. Como se pudesse medir algo assim. Mas o que o homem julga a história conta e o que era banal para uns se torna arte para muitos.  

 

 

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