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Subterrâneo

 Foto: Mario Cassettari

 

Uma história bem contada é aquela que nasce do coração de um jovem que com suas reflexões e vivências produz uma narrativa consistente e encantadora. Subterrâneo é o exemplo que a comunicação e compreensão não precisa ser feita só pela fala, afinal, o corpo se comunica tanto quanto as palavras. Os bailarinos que tomaram o palco do Teatro Renascença, na noite do dia 04 de Maio, para apresentar seu trabalho no 14º Festival do Palco Giratório, encheram de generosidade e emoção a platéia que prestigiou o grupo.

 

A presença em cena é algo que conta muito quando se vê um espetáculo, ainda mais quando estamos falando de dança. Para a dança ganhar destaque ou ser o foco central, deve-se deixar de lado o ego, e simplesmente permitir que a arte desabroche. Subterrâneo tem a delicadeza de trazer essa presença em cena. Isso se vê na gana dos bailarinos ao estarem no palco e apresentarem a construção cênica para o público que se torna pulsante. No início quando o grupo entra em cena a energia deles é tão gritante que sobressalto em meu assento e arregalo meus olhos de satisfação em sentir aquela atmosfera. Sou conduzido a permanecer enraizado nos movimentos, esquecendo de tudo ao meu redor e simplesmente apreciando cada segundo do espetáculo.

 

Como numa brincadeira entre eles o movimento, o ritmo e as batidas se tornam músicas, esta que na verdade é a comunicação entre as personagens. Em cena estão sendo representados mineiros africanos do século XIX, que ao chegarem ao local de trabalho se deparam com inúmeros dialetos e necessitam criar o seu modo de se comunicar e se fazer compreender. Esses trabalhadores não foram levados de uma forma amigável, mas no subterrâneo entre exploração e cotidiano pesado eles conseguem juntos transformar suas vidas em momentos humanos e inesquecíveis. Os bailarinos do Gumboot Dança Brasil trazem no palco uma celebração e esse momento histórico e com respeito traduzem isso belamente para o conhecimento dos outros.

 

Bravamente o elenco foi aplaudido pelo público que nem respirava ao ver a força dos movimentos e as sons que provocavam quando seus pés encontravam o chão e suas mãos exploravam o corpo produzindo música.  A sincronicidade desses movimentos quando todos faziam juntos era de arrepiar os pelos do corpo. Parecendo que o fôlego iria terminar eles iam até o extremo, e quando achava que iriam ser vencido pelo cansaço, brotava no rosto deles um sorriso e um tesão, que os dava fôlego para recomeçar uma nova etapa da coreografia.

 

A simplicidade do grupo trouxe diante de nós a arte e humanização de uma história que mudou nossos corações. Fui abraçado por cada um deles ao ver seus pés baterem no assoalho e como se visse a poeira levantar, sentia o pó da terra se misturar com seus suores e assim embelezar seus corpos e movimentos. Mesmo criando seus próprios dialetos, conseguia entender muito bem o enredo e seu caminho no decorrer do espetáculo, pois antes de qualquer coisas eles falam com alma e coração. Surpreendente ver um grupo que acredita fielmente na proposta do espetáculo e se envolve dessa forma, com uma generosidade única. No término do espetáculo eles se sentam diante de nós para uma breve conversa, neste momento percebemos seus corpos exaustos, mas felizes por terem emitido seu recado. Neste momento tive a certeza de que estava diante de artistas, ao ver nos bailarinos sua simplicidade e perceber que estavam interessados em olhar, no olho de cada um que estava naquela platéia. Desde o início temos a certeza de que os gestos falam muito mais do que palavras, e o mesmo se dá para este grupo, que aos poucos e com uma base sólida vem conquistando os palcos nacionais. 

 

 

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