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A Invenção do Nordeste

 

Foto: Cláudio Etges

 

A Invenção do Nordeste é uma síntese de todos os recursos da atualidade, que se une com teatro e juntos trazem um enredo totalmente cultural e histórico. A surpresa ficou na proposta apresentada pelo Grupo Carmin querer discutir questões culturais, políticas e históricas de uma forma tão escrachada e não se tornar monótona ou brega. A riqueza nos detalhes das narrativas e na proposta do espetáculo é sensacional, do modo que através de um teste para um futuro papel, dois atores trazem seus conhecimentos sobre o nordeste e permeiam a história local. Mesmo estando distante da realidade apresentada por eles, era totalmente compreensível os contextos apresentados.

 

Satisfeito e espantado estava no término do espetáculo, essas sensações se misturavam com os aplausos da platéia que também animada assobiava e elogiava o trabalho de Henrique Fontes, Mateus Cardoso e Robson Medeiros. A metamorfose cênica nas composições feitas por eles, a partir das provocações feitas pelo diretor, os atores tentam encontrar sua personagem que representa um nordestino. Ambos estão concorrendo a um papel em uma grande produção. E para essa seleção ser feita há um caminho enorme a percorrer e diante de nós está esse momento tão importante para os atores.

 

Usando como pano de fundo esse teste, os atores vão buscando em suas raízes entender quem é o nordestino. Para esse entendimento acontecer a uma exploração do nordestino, da voz, jeito, a questão cultural e local. Assim destrinchando a geografia, política, as fábulas da região, a literatura, a música e as figuras conhecidas por todos. Sentia-me numa aula, claro que nem chega aos pés disso, pois a proposta é tão elevada que deveria ser obrigatória para os professores assistirem e se inspirarem em suas aulas. Não pelo modo que as informações foram apresentadas ao público e os recursos usados, mas pela paixão em trazer e tratar aquele assunto.    

 

Uma mesa com cadeiras, um celular, luzes e poucos acessórios fizeram com que um simples tablado preto se tornasse inúmeros lugares e situações, dando particularidades distintas para cada tema tratado. Fabuloso o momento onde eles usam uma tábua de servir café, o pó de café e colherinhas para desenhar o mapa nacional e brincar com as regiões. Sem contar à hora que utilizam um filme, para ilustrar a cena entre um cangaceiro e um cabra macho. E do chão emborrachado e com recortes, abrigava imagens que eram usadas para exemplificar suas falas. Também apareceu o uso do celular, da câmera e do vídeo.

 

Da brincadeira corporal e da provocação entre o diretor e os atores para buscar mais e mais dos seus próprios conhecimentos para serem subsídio da criação desses personagens. Não há como agradecer a credibilidade dos atores, como estão envolvidos e trazem para cena um trabalho motivador para outros profissionais do teatro. Sabemos que o corpo tem suas limitações, só que também se for bem explorado e trabalhado pode nos surpreender, ainda mais quando juntamos nossa regionalidade e usamos isso ao nosso favor. O orgulho de ser nordestino e de pertencer àquela terra e fazer parte daquela história é visivelmente percebida neste enredo. O solo nacional é rico em sua cultura e história, pena que muitas vezes temos um olhar distorcido ou nem conhecemos de fato a nossa trajetória. Por isso, fico emocionado ao ver um projeto que está levando esse olhar tão acolhedor e tentar ampliar a observação do resto do Brasil para uma região que não é só seca e sem frutos. A muito mais que você pode imaginar!  

 

A Invenção do Nordeste é a invenção da nova forma de se comunicar e trazer ao mundo um modo de ensinar. Quase sendo uma nova educação, que pode mudar a concepção pessoal de alguém sobre o nordeste e a história do Brasil. Não só de riso se constrói essa peça, mas de conhecimento e reflexões que despertam esse novo olhar. E da valorização cultural e humana de um povo que lutou e passou e passa todos os dias por esses obstáculos e dificuldades. Que possamos ser mais ativos a buscar a conhecer mais de si e do outro e da nossa história. Que possamos ser atores que quando provocados pelos diretores tenhamos na ponta da língua a história da nossa nação e assim defender com amor e orgulho nossas raízes. Talvez tudo isso só se deu de fato pelo jeitinho nordestino de ser.

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