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Lilás

 

                                                                  Foto: Pingo Alabarce

 

Num simples passeio numa livraria houve um encontro entre um livro e um diretor de teatro. Esse convite tão especial entre obra e leitor, faz com que o diretor Alabarse se envolva com os textos de Jon Fosse e queria retornar aos palcos para dirigir “Lilás”. E assim, conduzindo o público a trilhar num novo caminho, leva a todos apreciar a peça no Porão do Teatro da Renascença. Dessa forma sou abençoado por uma vivencia inesquecível. Deparo-me com cinco atores que estão seduzidos pelo enredo de Lilás e nos apresentam uma nova proposta de fazer arte. No primeiro momento fico a desviar das cabeças que estão na minha frente para tentar ver o máximo das ações dos atores que se encontravam no fundo do porão, mas mesmo com essa dificuldade, não perdi nada. A emoção trazida nos conflitos da banda tocou-me de uma forma especial. No segundo momento, todo o público troca de lugar com os atores e o palco se inverte, e dessa forma, fico diante do ator Pingo, que traz no fluir da sua personagem uma narrativa que todo artista se reconhece e entende a sua aflição. Os caminhos da vida do musico Guitar Man é compreendido com facilidade. Saio esperançoso de Lilás, ao me deparar com tanta simplicidade e determinação de atores que estão em busca do seu ofício. 

 

A criatividade é o centro desse projeto que monta com muito zelo o espaço que utilizam para contar essa história. O porão é utilizado de formas numerosas, como se todo espaço, lugar, relevo, escada, repartição fosse o palco de Lilás. O enredo invade o local e se espalha do chão ao teto, entre as paredes e lá se cria até odor, o cheiro daquela história, da banda que se reuni num porão para fazer música e lidar com seus dilemas. Lembro-me que sentia o cheiro da cachaça, não sei se tinha de fato isso nas garrafas, mas eram tantas garrafas e a atmosfera mexia com meus sentidos.

 

A voz tenta se expressar, não só no canto ou na música, mas a voz da banda tenta dar um sentido para tudo, ou melhor, estão tentando encontrar o sentido de tudo. Os conflitos pessoais estão entre eles e acabam se misturando com suas músicas, mas mais do que isso, eles estão tentando se expressar e fazer com que a arte seja o sentido de suas vidas. Esse drama entre música, banda, carreira e vida se torna tão intenso que presenciamos um dos momentos mais intensos desses integrantes que querem sabre o por quê?

 

A sede de estar em cena dos atores Pingo Alabarce, Miriã Possani, Frederico Vittola, Nicolas Vargas e Leonardo Koslowski é percebida no decorrer da peça. Ainda mais por aceitarem o desafio de saírem do palco tradicional e estarem num espaço que se torna vivo no momento que recebe Lilás. O mais interessante que ao ver toda a proposta automaticamente me vem lembranças de bandas americanas que já tinha visto em filmes ou seriados. Mesmo com essa referência marcante na memória, sentia estar diante de algo mais vivo, cheio de calor, pois os atores estavam de corpo e alma dentro da narrativa. Nunca vi nenhum deles em cena anteriormente, assim me despertando a curiosidade ao ouvir e vê-los naquela noite. Quase como no papel perfeito, o ator Vittola, fazia com que o meu olhar inúmeras vezes, se desviasse para sua personagem. O baterista da banda consegue despertar provocações inusitadas no decorrer do espetáculo.

 

Outra coisa que despertou nesse projeto foi ver como todos conseguiram equilibrar seus personagens na cena, nenhum quis se destacar mais que o outro. Todos estavam no mesmo nível, como se todos estivessem unidos em prol do texto. Claro que sempre somos conquistados por um ou outro. Só que ali tinha o tempero certo, a aflição do rapaz em fazer música, o desejo da moça de ter seu homem, o baterista que nos deixa aflito com suas atitudes, o vocalista que usa do seu charme e da sua dependência para cantar e o baixista que é movido pelo álcool. Não posso deixar de falar de Miriã. A atriz e marcante em cena e tem a facilidade de desperta um sorriso no rosto de todas na pláteia. A atriz foi abençoada pela comedia e carrega o riso e a leveza consigo, e consegue despertar aquela sensação boa de estar em frente a uma atriz cômica e profissional.  

 

Num segundo momento me deparo com o desabafo da personagem de Pingo Alabarce, que se torna um despertar aos meus ouvidos ao ver os caminhos que sua trajetória tomou a partir das surpresas da vida. Diante de nós o guitarrista, agora mais velho, olha nos olhos de cada um. Sem medo e totalmente de corpo e alma, ele usa, a sua voz para narrar os acontecimentos até ali. Reconhecer suas escolhas não é fácil, e trazer elas diante de todos se torna um desespero, pois em algum momento ele devia colocar tudo aquilo para fora. O mais belo é a conexão que o texto faz com a vida de cada um, esse reconhecimento entre arte e vida, nos aproxima da compreensão do momento atual da vida de Guitar Man. O desfecho é quase o mesmo da maioria dos sonhadores. Só que a sua aprendizagem é peculiar no mundo que ele trilhou. Toda essa carga é apresentada de uma forma humilde e sincera para nós.

 

A arte move alguns artistas a estarem em cena e nela sempre aprenderem e evoluírem em seus trabalhos. Nunca tinha presenciado tanto amor na fala final de um grupo de atores como na noite de Lilás. Como se fosse uma honra e prazer de ter cada um que prestigiou naquele momento tão especial para eles, da onde estavam falavam nome por nome dos conhecidos e agradeciam verdadeiramente a presença deles. E ainda para sair do porão você passava pelos atores que ficaram ali e abraçaram um por um que passou por eles, com breve palavras de carinho a todos. E pode ter certeza que os simples gestos vistos com esses cinco atores e seu diretor, construíram uma platéia que voltará aos teatros ou porões para ver peças e aplaudir generosos textos que ganham vida em mãos de artistas com almas livres e dispostos a dar voz a tantas histórias.

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