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Neva

April 24, 2019

 

Gratificante para o público prestigiar NEVA e ver a exploração do exercício da atuação e suas formas de fazer teatro. A peça coloca em cena, três artistas - Marina Fervenza, Natasha Villar e Phillipe Coutinho, que estão em processo de lapidação, mas que já se destacam pela sua essência e responsabilidade neste ofício. Com muita profundidade que vimos esses artistas darem vidas aos seus personagens e trazerem as diversas camadas desse texto de Guillermo Calderón. Percebo que a criatividade é um ponto norteador deste projeto que consegue ampliar suas formas de se expressar e nos conduzir ao imaginário. Assim nossa observação foca na expressão e na criação do ator, que acaba buscando uma aperfeiçoação ao dialogar com o público. Quase como uma brincadeira, NEVA desenrola o roteiro da peça sem deixar esfriar em nenhum momento.

 

A sede que rodeia os três atores é contagiante e que faz te envolver com a história de um grupo de teatro que se reúne para ensaiar uma peça, e a partir disso, inicia inúmeras vertentes de conflitos. Essas problematizações que vão desde o estudo da cena e se mistura com o lado pessoal de cada personagem. Com um ar de teatro estudantil, mas ao mesmo tempo a uma atmosfera de exercício cênico, somos conduzidos a explorar a imaginação a partir das cenas construídas pelos atores. A dinâmica entre eles flui tão bem que muitas vezes se esquece que estamos diante de uma peça. Peguei-me algumas vezes me perdendo entre os diálogos achando que estava diante daquela situação e que aquilo era real.

 

Sem medo, o palco é invadidos por eles. Natasha além de ter uma energia e presença no palco, mostra-se como uma atriz ao mudar de expressão e sentimento rapidamente. E sem contar que seu corpo tem um ritmo que ajuda a contar as ações e vivências da sua personagem, que nada mais é que a grande atriz Olga Knipper e viúva de Anton Chekhov. O ator Phillipe é um artista, o rapaz abraça o teatro e o teatro o abraça sem deixar dúvidas. Ele consegue fluir entre as cenas, nos levando a enxergar além das suas ações e esquecer que está atuando, sua verdade é profunda que nos envolve na atuação. E seu personagem vem como um jovem ator que tenta ajudar Olga Knipper a reviver a emoção da morte do marido, tentando representar o viúvo e reviver momentos marcantes. Já Marina me surpreendeu ao trazer a sua personagem com um jeitinho meigo, e que muitas vezes se sente deslocada dos outros, mas tem o sonho de ser atriz. E a cada avanço do enredo Marina Fervenza,  vai mostrando suas formas de se expressar, assim conquistando e fazendo uma conexão transparente com o público que se emociona com a cena final, protagonizada pela sua personagem.

 

E tudo isso só acontece dessa forma por que eles são forçados a caminharem por diversas formas de comunicação do ator. Com poucos elementos em cena, os atores exploram tantas formas de dialogar com o público que chega a ser inspirador ver esse teatro “limpo”. O palco é palco, mas que na condução dos atores ganha diversos espaços. E a platéia e a rua, o caminho, a festa. O público muitas vezes é observador passivo e outras ativo nesta proposta, pois a interação entre todos. Não tem como não se apaixonar novamente pelo teatro e por essa forma tão simples de fazer e explorar esse ofício na arte. Se vê amor na criação das cenas, nas construção das personagens, no trazer a emoção do momento, no subir na mesa, no correr pela escada e no falar a verdade ao outro. Mesmo sendo três em cena, a troca se dá brilhantemente. Um sustenta a emoção do outro, leva a energia da cena ou até prepara o próximo passo.

 

E foi nesse espetáculo que me senti velho, pois algumas vezes os atores estavam tão conectados com a cena e entre eles, que disparavam os diálogos tão rapidamente que não conseguia acompanhar. Mas o resto da platéia que eram jovem, muito próximos a idade dos atores, entendiam e dava risadas com a relação das personagens. Isso mostrava o quanto o espetáculo conseguiu abraçar o público e conquistá-los a estar vivenciando aquela narrativa. Talvez toda essa paixão e sede se dá por estarem no início da caminhada ou serem motivados por seus professores, colegas e até a platéia. Ou talvez por que são artistas e o palco é o seu lugar. Senti-me emocionado por ter experienciado algo tão motivador e puro, feito por atores jovens. Não fui só eu motivados por eles, ao sair tinha fila de pessoas preenchendo uma pesquisa entregue na entrada. Nunca tinha visto isso acontecer, ainda mais no teatro. Neva faz parte da 17º edição da Mostra TPE – Teatro, Pesquisa e Extensão que traz todo mês um espetáculo diferente na Sala Qorpo Santo na UFRGS, encenado praticamente por alunos do curso de teatro, que acaba tornando essas montagens de Quartas-feiras, um exercício cênico.

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