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Sobre Nós

April 20, 2019

                                                               

                                                                   

                                                                   Fotos: Tom Peres

 

 

No final do espetáculo “Sobre Nós’ não tinha vontade de sair do teatro, gostaria de ficar ali e preservar aquela sensação. Cuidadosamente me deslocava para a saída, mas os meus olhos ficavam procurando os detalhes daquela peça. O cenário e os elementos existentes na peça eram de uma delicadeza extrema e tudo isso nas mãos dos atores era a construção e desconstrução da poesia. O elenco de “Sobre Nós” embarca nessa poesia e brilhantemente coloca o texto do russo Anton Tchekhov, numa sensibilidade especial, que faz com que em muitos momentos desejasse fechar os olhos e só escutar suas vozes, sentindo as provocações divinas que vem das suas expressões.

 

O zelo com que se conduz à peça é encantador aos olhos. O diretor Leo Maciel se destaca ao trazer equilíbrio coerente ao saber dosar a condução dos elementos cênicos e a atuação do elenco. A peça parece ser executada em câmera lenta, as palavras não têm pressa para sair das bocas dos atores, simplesmente brindam nos lábios dos artistas, que sentem cada ação dos seus personagens e emprestam seus corpos para darem vidas e sentidos a cada cena. A peça é inspirada nas obras “A Gaivota”, “As Três Irmãs” e o “O Jardim das Cerejeiras” que ganham uma roupagem contemporânea, mas mantém uma etiqueta clássica.

 

A criação partiu do “Lab Cênico Leo Maciel”, que cada ano está pesquisando e criando novas peças e foi desses encontros que nasceu “Sobre Nós”. Dessa pesquisa se fez uma provocação nova de ver e apresentar o teatro. O público é conduzido a sentar numa nova distribuição de lugares no Teatro Carlos Carvalho, tendo a liberdade de mudar de lugar no decorrer da peça para ver de outros ângulos. Dessa forma, me colocou em um “novo lugar” de observador e me fez enxergar diferente as provocações apresentadas. Perco-me alguns momentos do espetáculo, nas falas dos personagens, me pegava olhando para o nada, mas ao mesmo tempo enxergando tudo o que diziam.

 

O comprometimento dos atores desde o início do espetáculo é perceptível para quem estava observando a concentração deles. A energia e a troca que acontece em todo espetáculo faz com que todos se tornem um. E se cuidar entre uma cena e outra, quando os atores não estão sendo o protagonista, delicadamente, eles estão em pontos estratégicos do cenário, fazendo alguma ação. Se ampliar seu olhar verá que a composição da cena toda te conquista pelo cuidado em cada coisinha pensada nessa proposta. Vemos que a direção e o elenco zelam por cada detalhe presente no espetáculo, de lugares imagináveis tiram elementos e surpreendem com a forma que utilizam cada objeto. Como se olhassem para a poesia que cada coisa.

 

As vozes dos atores são como canções das sereias do alto mar, que te encantam e magicamente te transportam para uma atmosfera divina. A força do texto é entendida pelo amor que eles conduzem e colocam em ação. E todos exploram o cenário e suas personagens com a intensidade necessária da cada um e o conjunto consegue chegar num equilíbrio necessário. Talvez uma contribuição para essa proposta ganhar essa dimensão, foi às trilhas sonoras que souberam trazer a melodia e o ritmo perfeito para cada cena que emocionalmente casou neste encontro. E se você for atento perceberá que toda essa composição cênica não se torna exagerada, pois parece que tudo está no lugar certo e controlado.

 

Algumas cenas ganharam uma anotação especial, fazendo com que quase toda a peça ganhasse recordações e destaque. Só que não tenho como não falar da cena onde, dois atores, se encontram vendados, em uma proposta sensível nos emocionam e ao mesmo tempo nos deixam apreensivos com suas ações intensas. Era novidade ver aquela condução entre atores vendados, questionamentos pessoais e ações fortes, que numa dança se permitem extravasar e nos colocar um pouco de inseguranças, ao ver seus pés de um lado para outro e seus braços carregarem um ao outro, sem poderem ver o chão e o caminho.

 

Os fragmentos dos três textos de Tchekhov se costuraram com algumas observações contemporâneas e da vivência dos atores, que parecem estar no texto original. E nessa identidade que nasce o - Coletivo Gaivota -, que acredita na poesia cênica e consegue se firmar na cena de Porto Alegre com esse belíssimo trabalho. Esse desejo pelo palco faz com que o elenco busque uma concentração absurda em querer passar a essência do projeto e mostrar o quando eles são responsáveis e devotos a arte. Assim construindo essa companhia com a motivação certa, que eles possam estar no maiores palcos para levar essa pureza e gana que há em exercer seu ofício e poder expressar novas formas de observar a arte e de se fazer teatro.

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