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ELAS

April 17, 2019

 

 

Na porta da Sala Álvaro Moreyra esperando para entrar no espetáculo do Nós Cia de Teatro não paro de me pensar numa pergunta que me fizeram na mesma semana. “Homem pode dirigir um espetáculo que fala sobre feminino?” Atormentado por esse questão fiquei meditando e refletindo sobre essa possibilidade, foi então que lembrei do músico Milton Nascimento e sua canção Maria Maria. Nesta música se encontra uma verdade sobre a mulher, sua luta e sua existência, Milton Nascimento e Everson Silva - o diretor de ELAS – são homens, sabemos que nenhum homem pode dar voz no lugar da mulher. A mulher é a única que pode criar sua voz e trazer com a verdade a essência do feminino, com uma coesão tão profunda que a troca só entende de mulher para mulher. Mas o homem pode se aproximar dessa essência, não será a mesma coisas, nunca será, mas poetas, músicos e dramaturgos conseguiram com humildade e delicadeza chegar a uma proximidade da mulher e falar sobre ela. No espetáculo ELAS encontrasse algo muito belo sobre a mulher, ali no palco existe o anseio, sonhos, medos, alegrias da mulher, mas a uma delicadeza ao apresentar essas observações, que é como se escutássemos o sussurro da alma de todas as mulheres.

 

A sensibilidade do Nós Cia de Teatro se torna visível a levar para a cena cinco atrizes que ilustram e remetem a lembrança das antigas deusas que usavam suas vozes para narrar histórias da sabedoria humana. E com essa proposta se vê no palco um cenário que estimula todos os sentidos corporais. A Sala Álvaro Moreyra e coberta por uma lona preta, no centro uma estrutura que contém água, essa composição me remete a uma gruta úmida e escura. A provocação que se dá em torno desse cenário e a composição das luzes e a encenação chega mexer no inconsciente do público, tanto que uma pessoa ao meu lado, necessitou se retirar do teatro, pois estava sentindo falta de ar.

 

E com esse cuidado de estimular o olhar do público entramos numa atmosfera mística, poética e sedutora da mulher. Todas essas temáticas são apresentadas entre as narrativas que acontecem no enredo de ELAS, mas com delicadeza e zelo, para aproximar da essência do feminino. Com respeito às atrizes iniciam o espetáculo com uma canção pedindo permissão para entrar nas águas e ali contar as histórias. As vozes dessas deusas também retornaram algumas vezes com canções belíssimas, algumas delas remetiam o anseio da proteção a todas as gerações de mulheres, outras a angústia e alegrias da vida, algumas reflexões tão próximas ao seu mundo. Os momentos musicais do ELAS tocam fundo quando ecoam sobre nós, pois são momentos onde as cinco atrizes conseguem chegar numa só voz e se ligam numa forma enérgica que nos faz percorrer os labirintos da alma.

 

Kacau Soares, Leticia Kleemann, Paula Cardoso, Raquel Tessari de Abreu e Val Barcellos conduzem diversas histórias, mas a cada nova história uma das atrizes é a protagonista da narrativa. E como é expressivo ao ver que cada atriz trás uma entrega para a sua história e que influencia as outras colegas, assim fazendo algumas histórias se destacarem mais que as outras. Mas quando as cinco se unem, tanto para cantar ou narrar alguma história, o destaque delas amplia nosso olhar ao ver a força que todas têm juntas nesse projeto. E com respeito elas entram nas águas e no decorrer do espetáculo se banham com delicadeza, permitindo assim a água destacar seus corpos e suas formas. Em alguns momentos, ELAS sentam-se nas águas e se banham, passando as águas pelos braços, pernas, rostos. Expressam na água a sua fúria e deixam juntarem com suas lágrimas. Algumas vezes elas querem tornar-se secas e estarem distante dali, mas sinto que a água é uma forma de limpar e purificar suas caminhadas e anseios da vida.

 

E no desenrolar do enredo via-se que a mulher tem gana, raça, força, marca, dor, alegria, manha, graça, sonhos e fé na vida. ELAS são MULHERES. Essência. Alma. Sussurro. Vão nas profundezas da observação da mulher e despertam respeito, admiração e orgulho por estarem ali diante de todos levando suas formas de falar sobre o feminismo e de se orgulhar dele. Mais do que uma bandeira é levantada em ELAS, se torna a beleza da narrativa na voz da mulher que tem a força de nos mostrar a essência e a forma de germinar a mudança da consciência humana em relação a ELAS e ao todo. 

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