©2018 by Crítica e Diálogo. Proudly created with Wix.com

Le Bufê

April 13, 2019

                                                                   Foto: MainQuest

 

O espetáculo Le Bufê usa o riso como pano de fundo. Os autores Aline Marques e Eduardo d’Avilla trazem em foco inúmeros questionamentos que se tornam cômicos quando apresentados ao público, só que inconscientemente acabam produzindo novas reflexões. As observações levantadas pela peça traduzem a ironia humana e suas atitudes na sociedade e em relação ao outro. Em cena estavam duas personagens - moradores de ruas – Celói e Linguiça que trouxeram seus pontos vistas para compartilhar com todos que estavam naquela noite ao teatro. Tudo isso aconteceu de uma forma direta e sem rodeios, e claro, com bom humor. Com isso, a plateia se envolveu com o espetáculo e saiu no final da peça com dor na garganta e na barriga de tanto rir. E quando estava pronto para retornar à minha casa, passando pela porta do Centro Cultural da Santa Casa, me deparei com a realidade, e foi neste momento que percebo que havia acontecido uma nova visão do mundo.

 

Le Bufê é a forma de mostrar que a arte tem a sensibilidade de olhar para o ser humano, seu cotidiano e usar essas observações de uma forma inteligente para provocar uma nova forma de reflexão sobre o universo que estamos. Torna-se fantástico, ver a cena que todos estão vestido adequadamente na porta do teatro esperando o espetáculo começar e de repente somos surpreendidos pelas vozes altas de euforia que vinha da entrada do Centro Cultural da Santa Casa. Os protagonistas da noite, entram pela rua, carregados de sacolas e objetos que os acompanham, com seus trajes e modos (sua etiqueta e educação), Celói e Linguinça iniciam um comentário atrás de outro sobre o prédio que estavam. E com sua educação eles brincam e se divertem nos andares do local e chamam atenção de todos que se voltam para eles, alguns surpresos ao ver que moradores de ruas estavam naquele local, outros já envolvidos com a proposta dos atores. O que de fato nos deixa inquieto ao ver Marques e d’Avila dando vida as personagens, como estão a vontade e amando representar aquelas duas figuras, estando naquele momento da narrativa. Como se os moradores de rua, representados pelos atores, foram a forma que eles usaram para falar e criar a forma física e ética do que eles pensavam ao público. Este trabalho se torna grandioso pelo fato da pesquisa e observação feita por trás desse projeto e pela forma que ele é apresentado ao público. 

 

A simplicidade de Celói e Linguiça fizeram com que meus olhos brilhassem ao os verem na minha frente. Automaticamente a risada vinha acompanhada pela satisfação ao ver dois atores mostrando sua capacidade de criação. Aline chega ir além do que se vê nós palcos gaúchos ao mostrar uma naturalidade com Celói. A personagem é totalmente popular, troca algumas letras nas palavras, criando seu próprio vocabulário que muitas vezes era repetido pela plateia. Como se fosse uma brincadeira, fui escrevendo inúmeras palavras criadas por Célia no caderninho que estava em minhas mãos. Marques está tão a vontade e entregue em sua personagem que você não percebe esforço ao representar Celói ou reproduzir sua forma de pensar. Era como se Aline não existisse e Celói tomasse conta daquele corpo e mente. De uma complexidade via-se quando ela se aproximava da gente que até o brilho nos olhos era diferente, ali não estava a atriz e sim a personagem. Já Eduardo é um mistério em cena, além da criação do personagem você vê outra pessoa nos palcos. Como se a responsabilidade de dar vida a Linguiça vinha a frente de outros, d'Avilla mostra maturidade e perfeição na sua atuação. Para sua personagem ele explora a modificação do corpo, ao ter que exemplificar um cotoco, no lugar do braço e que nos chama atenção pelo fato de quanto tempo ele deixa seu braço dentro da manga da camiseta, que está amarrada para representar esse braço "mutilado". A voz é algo que me desperta atenção, pois é totalmente modificada pelos atores que vão para outras escalas dos tons normais de suas vozes. Sabemos que técnica, roteiro e conceito não bastam para conquistarem uma plateia, quando não estão envolvidos não basta questionar por questionar.

 

Todas os temas abordados nesse espetáculo como privilégios, diferença de classe social, política, poder, dinheiro, arte, religião, contemporâneo, sonhos, ética e outros. São carregados de coerência e compostos por argumentos sólidos que não são distantes da observação de todos. Não é um espetáculo cult ou filosófico cheio de frases bonitas e aleatórias. Percebe-se o cuidado em cada abordagem e da forma que ela será apresentada, mesmo que algumas pessoas não dominem tal assunto, consegue chegar ao entendimento do outro. Sinto que Aline e Eduardo tiveram o entendimento de ver o mundo da forma mais original e concreta do homem e levar isso ao palco de uma forma clara e objetiva. Assim sendo mais que uma honra prestigiar esse espetáculo, mais um encontro com a nossa existência. Acabaram mostrando a todos que podemos observar o mundo e o outro sem medo dos nossos pensamentos que já estão condicionados pela educação da sociedade. Essa é a beleza encontrada em Le Bufê e a escolha de como isso chega até nós.

 

E com gentileza as personagens utilizam todos os espaços do teatro, muitas vezes estando lado a lado do público e interagindo com todos. E os atores entendo com quem podem ou não brincar e levar para dentro dessa proposta. Assim respeitando todos que estão ali prestigiando a peça e conseguindo acolher a todos, que embarcam nessa hilária narrativa que tem um único propósito. Mas isso não posso contar, mas quando descobrir de fato o motivo que Celói e Linguiça estão no teatro e interagindo com todos ficará surpreso. A surpresa é de ver que somos mais parecidos que aqueles moradores de rua do que imaginamos. Somos humanos, seres que pensam, refletem e reproduzem conscientemente e inconsciente o que foi nos ensinados. Mas no fundo somos todos boas pessoas e estamos no mesmo barco e devemos agradecer a existência de Celói e Linguiça por estarem dando a cara a tapa e falando o que todos pensam e fazem e tentando mostrar a sabedoria das ruas e do homem os outros e tentar abrir os olhos da consciência humana a todos.

Please reload

Our Recent Posts

November 11, 2019

November 1, 2019

October 21, 2019

Please reload

Archive

Please reload

Tags

Please reload