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Tabataba

April 10, 2019

 

 

Encanto! Era essa a sensação que tinha ao escutar os pés descalços dos atores produzindo sons ao tocar no assoalho de madeira. E foi assim, com os pés nus que percebemos a raiz de uma história familiar e a relação de irmãos que pode se confundir com qualquer outra relação. O texto é tão belo que te leva a estar num encontro diante dos atores e participar como ouvinte ativo dessa narrativa. A simplicidade dá lugar a sensibilidade que transcende nos corpos dos atores que dão vida aos irmãos negros que moram no bairro de Tabataba. E da sua casa, eles permitem compartilhar a sua vivência e conflitos atuais, que mesclam com a sinceridade dos atores ao narrar momentos pessoais de suas próprias histórias. Esses recortes do presente e passado, personagem e ator, transforma-se na força das histórias e permite conhecermos uma realidade distante para muitos, mas humana para todos. Dessa forma mostrando a intensidade de contar uma história, que pode se confundir com a sua, mas se torna “A” história quando é entregue nas mãos de bons contadores.

 

Tabataba desperta a carência (quero dizer que a carência de ver coisas boas e por isso lotou) da narrativa quando se chega na Sala Álvaro Moreira e percebe a procura do público pela peça. Lotação máxima se dá na noite do dia 31 de Março, quando de fato, se presencia da forma mais concreta a grande movimentação virtual, que se manifestou nos dias anteriores e se tornara real naquele momento. Nas redes sociais era visto o carinho do público pelo espetáculo e que naquele domingo se fez fila para prestigiar. Todos estavam lá sedentos pela narrativa construída pelos atores Phillipe Coutinho e Hayline da Rosa Vitória e perceber o olhar do diretor Sandino Rafael. Que com zelo e sabedoria fez uma construção cênica sagaz quanto escolheu utilizar elementos chaves na peça e explorar o ambiente e a voz dos atores. Com maestria vimos um equilíbrio entre o ator que envolve um roteiro e consegue trazê-lo com tanta propriedade a cena e engrandecendo sua fala sem desmerecer outros elementos da narrativa. O texto de Bernard Marie Koltès mescla com fluidez e coerência com relatos pessoais dos atores que são acrescentados na peça e não saem do contexto do autor.

 

Os atores Coutinho e Vitória estavam em cena quando entrei ao teatro, como se estivessem em uma concentração e recepção do público, os atores estavam em um momento de solitude e busca de conexão. Mas como se fossem presenteados pelo terceiro sinal, os atores emprestam suas almas para dar vida aos irmãos e seus conflitos. Poucas vezes percebo o brilho que se destaca nos olhares de muitas pessoas que estão em cena, mas de Phillipe e Hayline se tornam notáveis no decorrer do espetáculo. Seus corpos e suas intenções encontram-se numa entrega tão envolvente que chega ser espantoso quando ele saem do papel de irmãos e dão vozes à suas lembranças pessoais. A metamorfose física e emocional deles muda de um extremo ao outro. A relação dos irmãos é perturbadora devido a responsabilidade da irmã mais velha, em ter que criar e educar o irmão mais novo. Essa educação voltada para o mundo é o laço entre eles que agora adultos se torna uma sina e acaba sendo o motivo de inúmeras brigas.

 

Essa relação de autoritarismo entre eles, onde a irmã quer ver o caçula no mundo, vivendo como todos os outros insistem em viver de uma forma socialmente padronizada. Mas ele não quer sair de sua casa, admirar a beleza das mulheres e estar por aí, sendo mais um na massa. Prefere estar no seu mundo particular, com sua solidão, compartilhando seus momentos com a moto em que gasta horas do seu dia, arrumando, limpando e admirando. Phillipe e Hayline não tem medo, um parte para cima do outro com toda força e fúria para dar vida a esses irmãos. A carga dessa relação é absorvida pelo público ao ver o tom seco entre seus diálogos e até a agressividade no olhar ao falar um com outro, pois de suas bocas as palavras são vomitadas com veracidade que até suas salivas não se contém dentro das suas bocas e saltam com fúria.

 

Algumas vezes os corpos vão ao encontro um do outro, e na intensidade parece que iram se chocar, bater e agredir um ao outro e a si próprio. Um dos momentos mais louváveis da peça é o momento onde a irmã resolve confrontar seu irmão e questionar sobre a conduta dele a partir de sua criação. Essa cena se dá com a irmã esbofeteando o rapaz e batendo no seu corpo a cada fala. Suas mãos estão sujas de graxa. A cada tapa, o som estridente do impacto vem acompanhado das marcas deixadas pela graxa. A cada nova acusação uma mancha diferente. Inútil, o irmão se sente ao perceber que está todo sujo de graxa. O poder dessa narrativa está na intensidade da história e na atuação presente em cena que faz jus ao seu ofício. A verdade das personagens nos entrega a certeza de estarmos diante de grandes artistas, que não medem esforços para ultrapassar seus limites ao contar uma história.

 

Outra coisa que chamou a atenção foi o uso de uma câmera de vídeo manipulada pelos atores e a projeção das imagens espontâneas em alguns lugares do teatro. Deixando a sensação de uma terceira observação, a primeira está nos atores, a segunda na platéia e a terceira ajuda a ampliar nossa observação naquilo que está sendo destacado. Num determinado momento a própria irmã se aproxima da câmera e seu rosto e projetado na grande parede. Seu irmão está ao fundo da tela e seus olhos tentando observar o que se passa, enquanto a platéia os observa. Assim trazendo três formas de observar e ver a mesma cena. Só que tudo muda, quando a cena troca para lembranças pessoais dos atores. No lugar dos olhos firmes, bocas tortas e corpos rígidos, se vê leveza, paz e alegria. O tom de voz se torna brincadeira e a conversa um diálogo direto com o público que escuta tudo como se fosse uma troca de segredos entre amigos.

 

Somos levado a esse universo com muita amorosidade e responsabilidade, conhecendo uma realidade com cantigas, brincadeiras e disfunções de irmãos populares e suas crenças a partir da sociedade e mundo que vivem. Como se fossem a extensão do seu bairro, a casa dos irmãos é o maior reflexo do lugar onde moram e de como idealizaram suas vidas. E entre essas regras e segredos há revelações que podem mudar o curso da história e lembrar a quem está assistindo que nunca sabemos de fato o que se passa na casa das pessoas e suas histórias. Antes de julgar ou ir falando aquilo que não sabe, pare e observe as circunstâncias, talvez ali você encontre a simplicidade que procuras e verá que todos somos iguais com nossas ideologias e formas de querer o futuro e o bem alheio.

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