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Milhões Contra Um

March 27, 2019

                                                      Foto: Amanda Gatti

 

A peça “Milhões Contra Um” produz o desejo de retornar ao teatro mais vezes. A peça me fez observar e compreender, que estava diante de uma direção solida. Ricardo Zigomático, consegue deixar claro a sua personalidade e visão. Já a produção dos irmãos Azevedo casaram muito bem com o olhar de Zigomático e juntos construíram uma identidade, que se destaca dentro desse trabalho. O espetáculo o qual o Grupo Oazes resolve estrear a sua parceria familiar em cena, se torna um marco para o elenco, que resolveu ousar com sabedoria na sua forma de fazer teatro. A voz do texto está em cada detalhe da produção, que te obriga a observar as camadas do espetáculo e conduz a platéia aproximar-se dos atores que nos levam a sentir juntos as suas emoções em cena.

 

Quando se é recebido pelos atores assim que entra no teatro, sente-se uma satisfação do elenco e seu afeto com o público. Esse ato pode passar despercebido, mas faz com que o espectador possa estar na mesma frequência dos atores. Milhões Contra Um é a desconstrução do modo tradicional do teatro e necessita dessa recepção tão calorosa, para deixar o público confortável e se juntar ao elenco na espiral que irá ser construída por com as cadeiras na sala. O teatro se desconstrói, e em seu lugar, está um espaço único a ser explorado e utilizado de inúmeras maneiras pelo Grupo Oazes. Dessa forma somos conduzidos a estar próximos aos atores e a cena, e ao mesmo tempo, vemos a peça de um ponto de vista único, pois estamos em um círculo, dependendo de onde sentarmos teremos uma visibilidade diferente. Assim obrigando a nos movimentar no nosso próprio eixo para ver toda a expressão e metamorfose que acontece dentro do espaço cênico usado.

 

A direção de Ricardo se torna sensível pelo seu estudo em cada detalhe pensando nesse espetáculo. Como um artista diante da sua tela, Zigomático cria sua arte equilibrando as cores, sons, sombras, luzes, elementos e personagens. Com essa criação, percebemos que a composição desenvolvida pelo diretor conseguiu trazer diante de nós o texto que há nas entrelinhas do roteiro. Dessa forma percebe que o cuidado na elaboração das cenas não era só para um complemento dos diálogos das personagens, mas manifesta uma poesia provocante e inquietante. E é dessa forma que Ricardo Zigomático firma sua identidade como diretor e suas colocações auxiliam a força do texto e na provocação no público que vai além da visão e escuta.

 

Por isso, talvez necessite ver duas vezes a peça para contemplar toda essa produção, fiz esse encontro em dois momentos diferentes para absorver as camadas do espetáculo. Esse movimento ganhou forças com a produção de Vitório e Casemiro Azevedo que também debruçaram-se nesse projeto e nos encantam com suas criatividades ao explorar a trilha sonora e iluminação. A peça é conduzida pelos toques suaves dos rapazes em seus celulares, que através do Bluetooth se conectam com as caixas de som que se localizam em diversos lugares. Somos surpreendidos pela criatividade dos lugares onde se encontram essas caixas de som e pelo volume da trilha sonora, que muitas vezes vem acompanha a narrativa de Milhões. Algumas vezes se junta à voz da personagem com a voz gravada e se tornam uma repetição e um destaque para aquela colocação. Interessante ver que o espaço cênico amplia-se para receber os atores, técnicos e juntos em cena se tornam maestrais na sua conduta. Quase imperceptíveis os irmãos Azevedo passam sobre os atores e o público, como sombras que algumas vezes nos chama atenção e dessa forma orgânica participam das cenas. Essas participações muitas vezes são para serem o suporte da luz, a poesia da sombra, o apoio do ator ou amplificar a voz da atriz.

 

Estava estampada na minha face a admiração perplexidade por toda a produção e delicadeza da direção ao ver Milhões Contra Um. Detive-me pouco ao texto na primeira vez, por isso foi uma segunda e busquei ver os atores Lisiane Medeiros e Carlos Azevedo darem vida a Senhora Milhões e ao Governador. Foi então que a cena onde as sombras são projetadas pelas lanternas na parede, gritava como poesia e estremecia as regras sociais, abordando de uma forma carinhosa um assunto tão importante de dialogar atualmente. A silhueta do corpo do governador é engolida pela sombra da cabeça da Milhões e ali há um discurso da mulher para o homem. Lisiane e Carlos emprestam seus corpos e suas vozes para falarem sobre as observações do poder e da reflexão, da injustiça e da justiça, do marido e da esposa, do eu e do seu. Pela primeira vez vejo esses dois grandes atores em cena, sem medo nenhum se olham olho no olho, fundo, e ali regurgitam seus textos com uma precisão e veracidade que de arrepiar seu corpo.

 

As cadeiras jogadas pelo local como se estivessem esquecidas pelo tempo e logo se transformam numa espiral para acomodar o público perto da mesa, do centro, do ato. O barulho da bomba, aquele tic tac, que com leveza passava sobre todos nós. Os focos de luz que hora estavam nos atores hora na platéia sempre em busca da reação e do destaque necessário. A inquietação de Milhões que traz até o Governador suas reflexões e anseios, e lembra ele que não adianta chamar ajuda, pois ela estava ali para explodir todo mundo. Essa explosão que se torna fúria, gana e bicho. Milhões se torna bicho e resolve colocar para fora suas verdades que se encontram com a verdade do público. No momento em que Milhões sobe na mesa e inicia o seu discurso íntimo e revelador, chama atenção de todos que estão com os olhares fixos nela. Neste momento obrigo-me a ver a reação das pessoas que estão conectados a personagem, mas há tanbém um reconhecimento familiar entre Milhões e as mulheres. Muitas mulheres sorriem, outras se emocionam, outras respiram leve. Lisiane transporta para um dos seus momentos mais significativos da peça e empresta seu corpo e sua alma para transformar vidas ao criar Milhões.

 

E nessas ações conseguimos reconhecer o diálogo proposto pelo dramaturgo - Raul Bradão, a sensibilidade de Ricardo Zigomático e a ousadia do Grupo Oazes que chega a nos deixar sem fôlegos. No término do espetáculo ainda estamos tão dentro de tudo, que demora um pouco até entendermos que necessitamos agradecer aquela vivência. E é dessa forma que o Grupo Oazes faz sua estreia com Milhões Contra Um, após estar a doze anos querendo produzir esse roteiro. O grupo teatral composto por uma família inteira, mãe, pai e dois filhos – e um novo filho acolhido por eles (diretor Ricardo Zigomático), mostra que desistir nunca esteve em seus planos nesses anos entre palco e bastidores. E que resistir e abraçar a arte foi à melhor escolha.

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