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Voraz

March 13, 2019

Foto: Adriana Marchiori

 

Voraz é aquele tipo de comédia/drama inteligente que traduz a obsessão de relações entre pessoas e casos amorosos. As personagens de uma forma divertida, constroem suas narrativas com leveza e boas gargalhadas. Os atores sabiam muito bem qual o momento usar de referência cômica. O absurdo é que em cada cena sempre havia dois atores, e um dava a deixa para o outro. E nesse equilíbrio e respeito cênico, tanto dentro e fora dos palcos, nasceu uma forma humilde e louvável de fazer teatro na atualidade. Percebo que as companhias teatrais Indeterminada e Ato Cia Cênica conseguiram equilibrar seus ideais e unir forças para se fazer teatro. Não é o primeiro projeto que fazem juntos, mas entendo que ambas tem suas particularidades e ao mesmo tempo estão criando uma nova identidade nessa união.

 

Danuta Zaghetto a metamorfose cênica. Louise Pierorsan firme como rocha. Luiz Manoel sabe usar a intensidade a seu favor. Ander Belotto a fluidez presente. Mauricio Casiraghi a presença que basta. Este é o elenco que encontra contando essa história e suas maiores versatilidades no palco. Muitos já vi em outras produções e posso dizer que a cada novo encontro me surpreendo com os caminhos escolhidos. E outros vi pela primeira vez neste projeto e fiquei perplexo com suas iniciativas. Matheus Melchionna está cada vez mais mostrando as suas observações como diretor e executando projetos admiráveis. Esse elenco jovem está abrindo novos caminhos para o teatro gaúcho e irão perpetuar por um longo tempo, trazendo novas discussões de uma forma brilhante, como fizeram com Voraz.

 

O texto de Voraz exige uma insanidade absurda de cada personagem. As personagens apresentadas vão caminhando por situações que se tornam perigosas quando saem do controle de suas mãos. E nisso estamos falando de relacionamento – convívio e amorosos. E como eles não conseguem separar os acontecimentos com suas particularidades, acabam levando tudo para o lado pessoal e misturam com seus traumas da vida. E dessa forma as cenas se tornam maravilhosas e muito bem exploradas. O ator se permite a chegar numa neura corporal e mental que parecem loucos. A forma que isso é conduzida se torna agradável de vê por dois motivos. O primeiro é que toda ação deles não sai da realidade, não a uma ilusão criada sobre a situação, mas a representação fiel do que o homem faria naquela situação. Segundo a loucura de cada um.

 

Os atores se divertem em cena, via-se o prazer de estar fazendo Voraz. Ninguém estava preocupado em passar um texto ou uma ideia para o público. Só estavam mergulhados na narrativa e aproveitando o momento. Essa excitação deixou a peça com uma energia surreal e fez toda a diferença naquela noite. A insanidade humana é vista como algo ruim, mas Voraz mostrou o lado mais leve dessa loucura. O que me chama a atenção e a disciplina e concentração dos atores diante dessa alucinação. Pois ao mesmo tempo que deviam colocar seus corpos, suas vozes e ações como seres alucinados, deviam se manter no texto e em cena e ainda trazer o tom cômico em inúmeros momentos. Essa presença é totalmente vista por todos. A uma ligação entre esses atores, como que se no palco fosse o lugar da sua união. Reparando percebi que nas maioria das cenas havia dois, um sendo um deles explosivo e ou outro mais contido, como se fosse um equilíbrio para o fluir da narrativa.

 

E quando você acha que poderia esfriar, Voraz vai caminhando para a cena final do encontro de todos essas figuras loucas, juntos em cena. O que poderia ser um desastre de intensidade vira uma apreciação de disciplina minuciosa, o cuidado com esse encontro é feito com sabedoria para podermos ainda ter a intensidade de cada um e ao mesmo tempo ver o desfecho dessa história. Teatro é a exploração da cena, do texto, da comunhão do grupo e do encontro individual. O processo do ator e de uma companhia nunca tem fim e descobertas de desafios contínuos. E muito desses atores que estão em Voraz buscam essas propostas, pois estão em diferentes projetos cênicos com direções, colegas, roteiros e palcos variados. Assim estimulando suas percepções e formas de explorar e fazer teatro.

 

Estamos diante de uma nova era de atores do teatro gaúcho que já estão deixando suas marcas em Porto Alegre e veremos falar desses atores na história do teatro. Digo isso, pois estou acompanhando essas companhias e percebendo os seus anseios de manter o oficio vivo nos tempos atuais e sem medo de dizer ao mundo que são artistas e que acreditam na cultura. E por terem esse amor estão produzindo esses diálogos e reflexões tão calorosos que estão usando e explorando os espaços culturais da cidade e levando o público a se aproximar e abraçar suas ideias. Devido a esse convite tão esperançoso e delicado e percebo o perpetuar desses atores Voraz que usam sua insanidade para fazer arte.

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