©2018 by Crítica e Diálogo. Proudly created with Wix.com

O Mal Entendido

March 9, 2019

  

Pela última vez os calorosos aplausos da platéia irromperam e finalizaram o espetáculo O Mal Entendido. Como resposta daquele momento épico, todos estavam entregando suas emoções em forma de aplausos, sorrisos, lágrimas e assobios. Atmosfera do teatro estava envolvida com a força do espetáculo, lembrava a força das águas, que transbordava dos limites e inundava os olhares e alma do público. Com direção de Daniel Colin e uma produção minimalistas, O Mal Entendido manifesta a glória do teatro e nos conduz desde o início a se aproximar do enredo e se tornar parte do espetáculo.

 

Na noite de 17 de Fevereiro, no Porto Verão Alegre, O Mal Entendido fechou seu ciclo. Uma peça que encerra sua trajetória naquele instante. Talvez por ser a última vez que iria se contar aquela história, viver aqueles personagens e saborear aquele diálogo, ações e vivências, era perceptível a intensidade dos atores e envolvidos. A emoção não estava só na cena, mas nos bastidores, pois de alguma força estavam se despedindo do espetáculo. Só que tinha algo diferente, talvez era a energia que estava sobre a última apresentação ou os corações calorosos ou a platéia que estava desejando aquele momento. Mas tinha algo no ar.

 

A penumbra que abraçava o Teatro Carlos Carvalho chegava a nos abraçar. O contato visual com as personagens se dava de fato, nenhum momento você via alguém desviar os olhos, o público encarava os atores de verdade. E eles sem medo olhavam e convidavam a estarem juntos deles naquela narrativa. E sim, viajamos com eles, estávamos diante do velho convento, da angústia do filho que queria contar sua verdade a mãe, da mãe que carregava as dores da vida no coração, da ambição da irmã, do amor da esposa e do fiel escudeiro que sempre esteve disposto a auxiliar o que fosse no lugar. Essa trama é tão bem contada e produzida que te faz chegar até o lugar, sentir o cheiro, vivenciar a sensação, despertar o medo e a curiosidade.

 

Os atores – Carla Cassapo, Elison Couto, Fernanda Petti, Gabriela Grego e Pedro Nambuco   - manifestaram com seus corpos a brilhante atuação. Presenciei pela primeira vez na vida personagens que de fato tinham cheiro, lembranças, dores, alegrias, medos, histórias. Os atores traziam as narrativas de cada personagens. Não era só amor pelo texto ou pela produção, era entrega. O palco estava dando lugar a esses cinco atores que naquele momento estavam nos presenteando com uma magia. Era só olhar nos olhos, olha bem fundo de cada personagem e você não via o vacilar do olho, eles estavam de fato ali. Era a mãe, a filha, o filho, a esposa e o auxiliar. Era a história concreta. Única. Não havia interferência entre eles. Como se estivessem dominados pelas suas emoções e deixando acontecer o desenrolar da trama, com uma naturalidade, onde o medo não tinha vez e sim a verdade e o amor.

 

Outra personagem que esteve presente na peça foi à água. Esse elemento chega sorrateiro e de repente surpreende a todos com parte do cenário, das personagens e da narrativa. O barulho da água caindo no cenário era encantador e que poucas pessoas perceberam. Quando me dei conta desse som, senti que era como se fosse à trilha sonora do espetáculo. Ela chega de mansinho, e aos poucos vai se espalhando por todo o local, invadindo todos os espaços do palco. E quando percebemos ela transborda para os corpos dos atores, suas roupas estão banhadas daquele elemento. O líquido não aguenta mais e quer ir além e quando nos damos conta a ânsia das águas vai parar nos pés da platéia e no solo do teatro. Não consegue conter aquela intensidade. As águas na verdade são a verdadeira emoção. 

 

As histórias são assim, todas tem seu tempo. Algumas são eternas e se repetem todos os anos. Outras têm seu ciclo e logo depois se guardam. Algumas se perdem nas memórias das pessoas e outras lembradas com carinho. Não sabemos o que irá acontecer com O Mal Entendido. Mas sabemos que de fato ele foi e é importante para todos envolvidos, no final a emoção, a satisfação e o sentimento de dever cumprido estava espantado nos corpos dos atores. Que ajoelhados receberam o carinho do público e se entregaram de corpo e alma para a despedida daquelas personagens e história. Sei que O Mal Entendido vivo está em cada um deles, que tiveram coragem e amor em contar essa história por tanto tempo e mesmo assim, na última apresentação deixou vivo O Mal Entendido.     

Please reload

Our Recent Posts

November 11, 2019

November 1, 2019

October 21, 2019

Please reload

Archive

Please reload

Tags

Please reload