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Deus é DJ

February 27, 2019

 Como é diferente a sensação quando vou ver uma peça e estou diante de atores que conheço e admiro. Gustavo Susin foi um presente dos palcos, o vi e nunca mais parei de segui-lo e ver suas produções. Louise Pierosan conheço dos caminhos da vida e tenho uma admiração e respeito enorme por essa mulher. E estar diante desses dois em Deus e DJ, foi confirmar a coragem deles em cena e perceber o quanto eles como atores e o Grupo Jogo estão disposto a dialogar temáticas importantes para uma nova consciência na atualidade. Estava diante de uma estrutura montada na Galeria Goethe-Institut, no centro, havia a estrutura com paredes de plásticos transparentes e as cadeiras estavam em forma de arena. O palco está pronto, dentro dele os atores e fora o público, ali prestigiei uma das narrativas mais necessárias para as pautas do dia-a-dia.

 

Em um determinado momento queria fazer algo para arrancar aquelas paredes de plásticos. Sentia-me provocado pelos diálogos e histórias apresentadas ali dentro daquela vitrine. Só que não estava aceitando receber passivamente todo aquele conteúdo. As paredes distanciavam nosso encontro diretamente com os atores, fazendo que dessa forma só os admirassem e pronto. Mas esta era a proposta do espetáculo, admiração, visualizar, observar e até compartilhar. Antes da peça iniciar o diretor Alexandre Dill recebeu a todos na estrada da galeria e disse que estava permitindo fotos, vídeos e até transmissão ao vivo nas redes sociais da peça. Isso faz parte da peça, é uma extensão do espetáculo necessária para sua existência. Tanto que uma câmera fazia parte do cenário e estava registrando alguns momentos das cenas. 

E foi nesse palco que tivemos a honra de ver narrativas costuradas pela música, o ritmo, as batidas e melodias eram o fluir de cada história, essas que se costuravam em fragmentos diversos que iam nos apresentando aos poucos cada história. 
Incrível como a ironia estava presente em praticamente quase todas as falas desse espetáculo e tinham até uma pitada de malícia e toda risada produzida pelos atores em meios a narrativas, também despertavam  observação da malícia que havia por trás daquilo. Por isso, acredito que Deus é DJ tem muito assunto para se desenvolver numa roda de conversa entre amigos. O enredo traz a tona histórias totalmente ligadas ao nosso cotidiano e ao mundo fake.

 

A importância de ver os bastidores de um casal que está dentro da vitrine prontos para vender uma história. E muitas vezes, essas produções tem a interferência e manipulação do diretor. Eles deixam claro essa colocação. Mas o que percebi é que em meio a uma narrativa e outra, parecia que os atores esqueciam da câmera e deixavam cair nas profundezas pessoais e sem perceber estavam falando das suas próprias narrativas. Esses anseios que viam a toma com ironia, malícia, veracidade, fúria e alienação. Também havia lembranças boas e divertidas, que simplesmente deixavam-me em êxtase. Há um momento onde a personagem de Pierosan resolve cantar uma música que fez ao seu "crush". E neste momento está diante de nós uma criação insana de uma letra tão banal que ao mesmo tempo se torna poética na atualidade. Não sei se essa música é criação do Grupo Jogo, mas tenho certeza que se fosse para as rádios e redes sociais seria um grande sucesso.

 

Este é um exemplo do que esta peça trás. Também a momentos intensos onde Susin traz a fúria e os anseios mais profundos deixando atônitos com suas revelações. Sem contar que o final é uma explosão que nos conduz nem todo o espetáculo, pois ficamos numa angústia de entre os momentos mais densos e leves a espera de uma explosão que se dá no final. Mas o mais interessante é o ponto chave que fiquei refletindo mais tarde, foi como tudo é conduzido no decorrer do espetáculo. Entendo que cada detalhe foi pensado e criado para ser observado por todos ali. Mas sentia que a arte estava sendo banalizada, como se fosse aceito qualquer coisa como arte, produção, criação e que isso pudesse ser comercializado e ainda ter conceito na cultura. As personagens muitas vezes necessitava se esforçar ou não para criar uma narrativa ou ação. Não importando o nível ou sua qualidade, o fato é que precisava render. 

Acredito que este seja o maior dos problemas na cultura atualmente. Sabemos que o teatro, e a arte, devem ser explorado de inúmeras formas. Mas também entendemos que existe uma coerência para o que foi produzido ter seu valor e atualmente se tem produções em massa e sem valor nenhum. Esses produtos que estão no mundo ganham a cada dia destaques absurdos nas mídias. Sinto orgulho de ver uma peça como Deus é DJ criar sua própria trilha sonora e querer chegar perto do público e provocar tantas reflexões necessárias. E o mais admirável e que tudo foi pensado, as provocações não estão só no texto ou atuação dos atores e narrativas apresentadas. Vai desde a recepção feita pelo diretor que se amplia no cenário, nas colocações dos atores, no público e no cenário.

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