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Tenneessee

February 9, 2019

 

 

Surpreso ao ver pela primeira vez um espetáculo da Casa de Teatro. Tornou-se belo aos olhos ao ver a estética apresentada no palco e a construção cênica. Levando para o palco jovens atores, com cede do teatro e prontos para mostrar para o que vieram. Devido a uma produção minimamente pensada, na maioria do espetáculo, apagou o personagem principal, que é o ator, ainda mais os jovens que estão iniciando sua caminhada no palco. Demorou para que o ator despertasse em cena e conquistasse seu lugar, mas então, quando a chave virou no meio do espetáculo e se desconstruiu as estruturas inicias. Voalá! Diante de nós erguia-se o aclamado momento, o foco é dado para os atores, que em instantes destacam qualidades que cada um carrega e foram exploradas em cena, assim fazendo ter um novo olhar para o espetáculo. Nessa segunda fase do espetáculo o drama havia dado espaço para o real, as luzes diminuíram sua intensidade, o cenário aquietou-se e o ator tomou seu posto.

Os jovens atores do espetáculo Tenneessee são disciplinados. Não perdem o tempo de cena e mantém a energia na atmosfera. Percebia que estavam alinhados em cada momento do espetáculo. O cenário era quase a extensão das personagens e do enredo todo, que ganhava um destaque tão chamativo pelo sua construção e desconstrução. Deslizava-se de um lado para o outro, levando meu olhar à acompanhar tudo o que está acontecendo. Então percebi, que estava deslumbrado pelo estético, pela disciplina e alinhamento dos atores, mas não sentia verdade. A verdade que no palco deve se tornar orgânica e natural. Aquela que quando sai da boca do ator consegui se harmonizar com suas expressões e sentimentos. Entendo que o oficio do ator é uma construção sem fim, e mesmo com jovens atores cheios de tesão pela dramaturgia, houve momentos chaves que conseguiram fazer com que me posiciona-se melhor na cadeira para aproximar-me mais deles.

Desconstrução é a palavra para Tennessee. Desde o inicio houve essa proposta. Ao entrar no Teatro do Museu do Trabalho via-se que o palco havia dado lugar a platéia e onde era a local do publico virou o palco. Cadeiras de todas as formas, estavam espalhadas no tablado do palco, onde nós sentamos. Agora de frente para o palco de Tennessee se vê um cenário que era móvel e que se construía e desconstruía a cada nova cena. E nesta metamorfose aconteciam cenas movimentadas que mostrava uma nova observação do movimento e da energia da cena. Na primeira parte do espetáculo a energia e agitação e o movimento são deslumbrantes, onde o ator se locomove com rapidez e confiança, sabendo o que deve ser feito em cena. Tornando-se a maior preocupação dele naquele momento. Mas então vem a virada do espetáculo, onde o próprio Williams, em sua entrevista, diz que chega de draminha, vamos partir para o mundo real. E nesta hora o calmaria da lugar para a concentração nas cenas, na intenção, e na construção da personagem e a história ganha nova força.

O enredo é uma entrevista de Tennessee a um jornalista, onde comentam sobre algumas obra e vida do dramaturgo moderno. As cenas protagonizadas por Bruno Mros e Shico Menegat, onde jornalista e dramaturgo dialogam e refletem sobre o caminho tomado pelo autor, são excelentes. A verdade que acontece entre os dois, transborda além da cena contagiando o todo. E o mais admirável é que a personagem Tennessee Williams, interagia com seus enredos e personagens na cena, como se ali tivesse um pouco de si. Poético se transforma as cenas desses dois no decorrer do espetáculo.

E levado ao publico fragmentos de histórias escrita pelo autor como, “Um Bonde Chamado Desejo”, “Gata em Teto de Zinco Quente”, “Fala Comigo Doce como a Chuva”, e alusões a “Rosa Tatuada”. Onde os atores se revezam numa construção cênica e de múltiplos personagens. E o que acho mais admirável em ver jovem sedentos pela arte e que ainda não estão domados por técnicas e conseguem colocar sua identidade e essência na construção do personagem. Se o ator não tiver consciência disso, acaba deixando de lado esse diferencial, para conseguir se moldar as técnicas apresentadas por inúmeros diretores teatrais. Lembrando que devemos, sim, estudar e levar em consideração tudo o que nos ensinam sobre teatro, pois esse ensinamento lapida nossa construção de ator. Mas por que estou trazendo essa reflexão a tona, é porque no espetáculo Tennessee encontra inúmeros atores com suas essências gritantes em palco e que os tornam admiráveis.

Ali encontrei o dialogo na expressão corporal de um rapaz que já se comunicava com sua movimentação e seus gestos. A voz intensa de uma atriz, que mesmo na penumbra desperta arrepios com as palavras que brindavam sua boca. Atores preocupados em se entregar em cena, mas quando se permitem relaxar, deixam fluir, acontecer e acabam despertando sorrisos de admiração na platéia. Vê que muitas vezes necessitamos de estímulos para dar mais verdade a cena, e que isso funciona para muitos, que nestes momentos souberam aproveitar e tornar isso a seu favor. Tá sempre aqueles que querem e lutam pelo seu oficio e conseguem chamar nossa atenção e outros que já são artistas.

A maior beleza desse espetáculo foi estar diante de tantos jovens atores que merecem aplausos por estarem dispostos a buscar a arte como vida ou a vida como arte. Grandioso perceber o trabalho desenvolvido pela Casa de Teatro e pela produção de Tennessee. Ao sair na noite de sábado, dia 26 de Janeiro, decidi refletir muito sobre tudo o que presenciei e a cada novo pensamento, percebia que se pudesse iria ver novamente esse espetáculo. Pelo todo dele, mas ainda, pela transformação orgânica que ele deve ganhar no seu decorrer. Assim percebo que vou retornar a novos espetáculos da Casa de Teatro e acompanhar cada um desses atores e envolvidos nessa peça. Pois me cativaram. Mostraram que o oficio do ator é uma construção sem fim, sem tempo e sem perfeição. Mas sim um eterno construir e desconstruir. 

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