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Os Homens do Triângulo Rosa

February 6, 2019

       Comovido com a peça Os Homens do Triangulo Rosa, que simplesmente conseguiu despertar uma quietude na alma. Após o termino do espetáculo, me recolhi no quarto, isolado e a única companhia que tinha era minha respiração e as reflexões provocadas pela peça me consumiam. O espetáculo Os Homens do Triangulo Rosa é uma obra que defende os seres humanos e é conduzida numa maestria só, pela companhia Cia Teatro ao Quadrado. A peça tem uma estrutura intensa que me pegou de uma forma certeira. Não a como pensar nesse espetáculo e não narrar e lembrar novamente às cenas que aconteceram no palco. O impacto é tremendo e a história é envolvente, talvez pela proximidade que eles reproduzem cada personagem que percebemos a humanização dessas pessoas fictícias. Mas talvez o mérito disso seja a verdade que estava presente em cada ator e atriz do Os Homens do Triangulo Rosa. 

      As cortinas se abrem e desde o inicio sou convidado a apreciar o espetáculo. No palco uma simplicidade única, poucas peças de cenário que representam um apartamento. E quando os atores iniciam seus trabalhos, sou conectado numa atmosfera única. Gustavo Susin simplesmente te conduz pelo palco e te faz observar cada detalhe do corpo. Sendo único, o ator conseguia harmonizar sua narrativa com a expressão corporal de uma forma grandiosa e te envolvia na história. Com seu jeitinho ia relembrando a noite passa de Max que está tentando se curar de uma ressaca. Max com seu modo emburrado de ser, tem uma ligação fortíssima com Rudy e juntos protagonizam cenas reais. Quase com o mesmo espírito de Priscilla Rainha do Deserto, o inicio da peça que se dá no apartamento de Max é surpreende. A leveza e habilidade dos personagens te faz sorrisos, gargalhar e se conectar com cada um e querer fazer ser amigos deles.

     E numa energia única os atores Marcelo Ádams e Gustavo Susin conseguem sincronizar pequenas cenas de discussão de casal mais realista possível. O jogo cênico entre eles é tão verdadeiro que nem conseguia velos como atores representando personagens, era simplesmente convincente cada dialogo entre Max e Rudy. Rudy além da sua alegria contagiante, consegue despertar aqueles sentimentos mais bonitos que já carreguei e posso até acreditar no amor, aquele que sonhamos quando somos mais novos. A cena onde ambos estão juntos num bosque discutindo e logo a saudade deles é maior, e devido à ultimas circunstancias tiveram que ser mais discretos e não manifestar seus desejos. Mas naquele momento é só deles, e Rudy então começa a cantarolar a música Somewhere Over The Rainbow do Mágico de Oz. E numa coreografia os dois se junto na canção e seus corpos se movimento e conseguem tocar os dedos das mãos e as pontas dos pés. E nesse momento chega os nazistas e os levam presos.

      Mas logo depois, a peça ganha outro caráter, onde o sonhador Rudy e sua alegria contagiante, deixam ser consumida por uma realidade que doe o coração. A Cia Teatro ao Quadrado trouxe com a temática nazista e perseguições aos homossexuais, um modo de abrir nossa consciência para o outro ao nosso lado. A carga apresentada no palco é tão amorosa e ao mesmo tempo intensa, que chega dar alguns nos na garganta do publico. Mas sabemos, mesmo que diante dos nossos olhos, não estamos vendo nada de surreal, mas sim o real, de fato aquilo aconteceu com nossos irmãos e povos. E ainda acontece, e muitas vezes ficamos calados.

     Max é levado para um trem onde é obrigado a espancar Rudy. Logo mais é forçado a fazer umas das maiores atrocidades possível para poder sobreviver aquele momento histórico e cruel. Mas nessa viagem Max conhece Horst e daí por diante se desenvolve uma relação comovente e que nós leva para as maiores profundezas humanas, que é o amor. E quem consegue deixar o amor conduzir a vida, logo mais desfruta da generosidade e empatia, e isso se dá entre os dois que acabam se cruzando no campo de concentração e logo mais trabalham juntos diariamente. E o nível da peça só eleva-se, pois as cenas entre Max e Horst nós permite vivenciar inúmeras sensações e ver atores envolvidos até a alma com seus personagens. Frederico Vasques se torna imenso no palco com sua atuação. Ele consegue achar o tom certo da voz, do movimento e do olhar. Num determinado momento tinha desejo de chegar até Horst e abraçá-lo com compaixão e dizer que ele não estava sozinho.

     Marcelo Ádams consegue num movimento crescente ir engrandecendo sua personagem e ponto dos momentos finais arrancar lagrimas e falta de ar na platéia. E os dois apesar do pouco contato visual, eles conseguem desenvolver uma história de amor, cumplicidade e companheirismo. Essa relação deles é tão pura que também não a como não acreditar em cada dialogo e momento de troca entre os dois. A cena do sexo é simplesmente sublime, existe um tom nessa cena que mexe com você e neste momento o odeio em relação ao tudo aquilo só aumenta. Como pode uma ideologia fazer crueldade com as pessoas. Max e Horst só queriam amar.

     Então, de repente, você acha que já estava envolvido demais com todo o enredo e proposta e vem a cena que estremece dos pés a cabeça. Nessa cena o amor se encontra em forma de dor e anseio. Nos braços de Max a lembrança que se perdeu e o calor que aos poucos se torna frio e se transforma num grito. Esse grito, que vem da alma e gela meu corpo, estremece meus ideais e me deixa transtornado, a ponto de guardar esse momento na memória. E a emoção toma conta de mim e de todos que estão ali.

      Esse espetáculo se mantém anos em cartaz e escuto de algumas pessoas o relato de como essa peça tocou profundamente cada um. E ela permanece a tanto tempo em cartaz, não só pela temática abordada, mas pela verdade que a em cada minuto de espetáculo. Sem contar a entrega dos atores, que simplesmente vão fundo em suas personagens a conseguem nos transportar para o enredo e comover nossas almas. Como é bom ver um grupo de teatro que abraçou com muito zelo um projeto e acreditaram em cada detalhe dessa peça. Isso e visível em cena e talvez seja a maestria dos Os Homens do Triângulo Rosa. Que a vida desse espetáculo dure até o amor desses atores por essa história existir. E que possa chegar a inúmeros públicos e faça o que deve ser feito, transmitir a mensagem do amor e da caminhada humana. 

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