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Caio Do Céu

January 31, 2019

       Minha alma se encontrou com o espetáculo Caio do Céu. Ao término da peça sentia que estava entregue àquele momento único. Diante de mim a poesia de Deborah Finocchiaro, transformava-se em diversas facetas e abrilhantava os textos de Caio Fernando Abreu. O autor deve estar orgulhoso, pois ele conseguiu ganhar novamente vida e voz, e acima de tudo, transformar com suas palavras as almas sedentas de amor.  

     Assim que as cortinas abrem você é tomado pelas palavras de Abreu na interpretação de Finocciaro, que em poucos minutos de peça, mostra a voz da contadora de histórias. Segurei a respiração, ao ver a atriz embrulhada no tecido branco, declamando, clamando, rezando e recitando com maestria o primeiro texto. De cara uma narrativa que abraça elementos universais e sua simplicidade. E da forma que é conduzida a proposta até o público, me deixou emocionado no primeiro instante.

      Sentia-se fundo na alma as palavras que saiam da boca da protagonista, devido a verdade que brotavam na sua boca. Era comovente ver como sua voz, conseguia harmonizar com seus gestos e expressão de uma forma natural. Logo que finalizava um texto, já iniciava organicamente a transformação de um novo, e num segundo, lá está ela de novo, com outra voz, intenção e expressão. Deborah foi contando um texto atrás do outro, com intervenções de entrevistas do próprio Caio Fernando Abreu, que foram projetadas em um tecido branco, no fundo do palco. E misturava- se com a delicadeza de Gustavo que se encontra ao palco. Ele se junta à poesia cênica com suas trilhas sonoras que conseguiram abraçar os pensamentos de Abreu.

      Presente na cena, a metamorfose, fazendo com que os figurinos ganhassem inúmeras formas, que visam engrandecer as expressões. Mas se ficasse prestando atenção iria ver que o tom de voz da atriz, mudava quase em todas as frases e ela não estava fazendo isso pela beleza bonito. Deborah a cada minuto do espetáculo, estava tentando nos mostrar que a verdadeira protagonista de tudo eram os poemas nas narrativas. Na verdade era Caio Fernando Abreu. Ela só estava emprestando seu corpo e sua voz, para trazer o escritor de volta e que ele pudesse ter o prazer de por alguns minutos receber um foco de luz sobre si e brilhar.

      Não havia como não estar conectado com tudo o que estava acontecendo. Havia um silêncio na platéia, todos estavam prestando atenção em tudo. Ninguém queria perder nada. No palco, cadeira e mesa de madeira, no fundo tecidos brancos que juntos eram o telão do projetor, em cada lado do telão três cabides com os figurinos. Tudo fazia parte desse projeto zeloso e muito bem produzido. Gustavo não só trouxe sua musicalidade, como também atuou e nos encantou com suas performances.

      Um dos momentos mais tocantes, foi ouvir o ator emprestar sua voz. Sentado quase na boca de cena, olhando fixo para a platéia e praticamente cru, Gustavo trouxe as palavras do Abreu sobre o resultado positivo do HIV. Se fechássemos os olhos iríamos conseguir lembrar da voz de Abreu e sua simplicidade, suas observações sobre os acontecimentos da vida e sua humildade e respeito com sua caminhada. Neste momento, vendo essa cena, meu corpo arrepiava-se. Estremeci da cabeça aos pés. Abreu ainda cita Cazuza e neste momento, emoção, lembrança, texto, poesia e música se misturam de uma forma tão natural que o público num sussurro se junta numa só voz.

      Caio Fernando Abreu recebeu com maestria e poética um reconhecimento no palco através de Caio do Céu. Um espetáculo para a alma. Não precisa gostar de ler ou saber sobre o escritor, só precisa estar aberto e disposta a ver a peça e saiba que sairá tocado profundamente por cada detalhe apresentado em cena. Deborah e Gustavo deixam resplandecer seu amor pela arte, conseguindo levar nosso olhar para a grandeza das palavras desse grande autor, que se torna a peça chave do espetáculo. 

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