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Nós em Off

January 26, 2019

 

 

Há quem nos diga para nunca julgar o livro pela capa, já eu lhes digo: Nunca julguem a peça pelo seu início. “Nós em off” divide-se em três momentos bem definidos. A cada nova fase do enredo você é surpreendido e acaba passando mal, de tanto rir. Em alguns momentos faltou-me o fôlego para assimilar tudo o que se passava. A peça trás um olhar cômico para o que acontece nos bastidores do teatro, que naquele momento satirizado pelo - Nós Cia de Teatro, não deixa de ser a “pura realidade”.

Chegando ao teatro senti que dali não iria sair surpreendido, talvez até veria uma produção básica. Simplória. Um projeto raso. Mas já de início relevo, me enganei feio. Logo que tomei meu lugar, senti uma platéia distante, um público bem dinâmico e com muitas conversas paralelas que não combinava com teatro ou cultura. Isso já me fez repensar mais uma vez sobre o contexto do espetáculo. Então a peça começou e na primeira parte, vimos atores aparecerem e fazerem seu papel, de se colocar em cena e falar seu roteiro.

Esse primeiro contato com a peça é tão caricato que fica distante do público. Embora proposital, só entendemos no decorrer da peça. Entre uma cena e outra, o diretor coloca em prática seu ofício, dirigir. Então descobrimos que na verdade não estamos vendo a peça e sim o ensaio final. Só que este momento por ser tão teatral acaba diminuindo o potencial do resto do espetáculo. Tanto que de cara não consegui me conectar com a peça e querer ter ânimo para ir até o fim. Houve três pessoas que, pasmem, nem esperam a próxima etapa e se retiraram do teatro.

O que me chamou atenção nesse início foi a intervenção do diretor. Neste momento saímos daquele fake e entramos em algo mais quente, querendo assim fundir uma conexão. Porém, nestes momentos onde o diretor está em cena, todos estão atuando, seguindo um roteiro e marcações, essas que são mais orgânicas e começam a despertar o público para outras observações. Até então nem todos estavam rindo das piadas. De repente as cortinas se fecham e após um momento de reflexões do diretor e os últimos ajustes finais, a peça está pronta para a sua estréia. Abram-se as cortinas!

Como diria o popular ditado gaúcho, me caiu os butiá do bolso! Para minha surpresa, revela-se diante de nós todo o cenário virado, mostrando a parte de trás e os bastidores. Ali estavam os figurinos, acessórios, marcações e lembretes para os atores ficarem atentos às suas deixas e entrarem em cena. Eis que nos entregam uma grande revelação, da qual até então não tínhamos conhecimento. A relação entre os atores. Foi neste momento que a peça conquista o público e inicia às gargalhadas em massa no teatro Sesc. Neste momento até as pessoas que saíram antecipadamente me fazem refletir. A peça literalmente recomeça, mas agora, estamos revendo por outro ângulo e começamos criar associações com o que acabamos de ver. Juntando as cenas iniciais com os bastidores, o que as tornam hilárias a ponto de o espaço na poltrona ser pouco para segurar nossas emoções.

Como em todo lugar onde há pessoas, temos dificuldade de trabalhar em equipe. Porque em um grupo de teatro seria diferente? Vimos todos os tipos de problematizações que permeiam o camarim. Ego, egoísmo, medo, insegurança. E as grandes “famas” no universo artístico, o estrela, o alcoólatra, a que dorme com o diretor, o irresponsável e assim vai. O inusitado é que quase toda essa “segunda etapa” é feita aos sussurros e a expressão corporal toma a frente das cenas, fazendo com que naquele momento vejamos os atores sem suas caricaturas e orgânicos em suas atuações. O momento se torna a cereja do bolo, pois não houve uma alma viva a não se contorcer e gargalhar em suas poltronas.

O terceiro e último momento, começa com um discurso do diretor falando da importância do teatro e os motivos que ainda o fazem se inspirar e continuar nessa profissão. Logo depois entende-se que os anos se passaram e aquela seria a última apresentação daquele espetáculo e mais uma vez somos surpreendidos. Pois a peça recomeça, só que agora ligamos os dois outros momentos que já havíamos assistido e estamos familiarizados com cada personagem. Finalmente! Entendemos os problemas e o desgastes entre eles sobre os ensaios dos espetáculos e somos presenteados com novas cenas hilariantes. Nesta reta final, escutamos algumas risadas isoladas da platéia. Risadas que provocam novas risadas em massa ao público. Agora percebia-se que haviam pessoas se divertindo, ações aleatórias que contagiava a todos no final. Sentimos então que estamos diante de um grupo totalmente voltado para a comédia, onde atores sabem o tempo da piada e que fazem aquilo diretamente para o público. Diferente de algumas produções que estão no mercado, o elenco de Nós em Off mantém uma disciplina em cena e concentração sem matarem os textos e se juntarem com as risadas da platéia.

Percebe-se que nem toda ação se torna motivo de risada, pois muitas abordagens são específicas do universo teatral, mas, mesmo quem não conhece consegue se familiarizar com outras inúmeras cenas do espetáculo. Como é bom as pessoas verem que o teatro não é só decorar texto e colocar um figurino e sim um trabalho em conjunto e muito diálogo entre todos. De uma forma leve e divertida Nós em Off trás esses bastidores para a cena e coloca diante do público geral, como se fosse uma revelação.

Não tem como deixar passar despercebido a atuação da Leticia Kleemann que na noite em que prestigiei o espetáculo, arrancou sem dó nem piedade, diversas vezes, o aplauso do público. Simplesmente Kleemann consegue naturalmente extrair profundas gargalhadas acompanhadas de lágrimas nos deixando revirados na poltrona.

Comediante nata que sabe o seu momento em cada cena, como brincar com sua personagem, o roteiro, o público e ainda passar a bola para seu colega, deixando-o no centro.

Fazia tempo que não sentia dor na garganta e barriga de tanto rir. Podem apostar que Nós em Off vai ser quase uma terapia do riso. Com leveza e dinâmica singular, a proposta contagia aos poucos e tudo está tão bem ligado e amarrado que necessita da nossa atenção do início ao fim. Mesmo sem a aproximação instantânea com o espetáculo, a proposta mostra que não devemos largar tudo de uma vez só porque a primeira impressão não agradou. Por isso reitero, não julguemos a peça pelo começo, pois podemos nos surpreender com o final.

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