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Baal da Luz Vermelha

January 15, 2019

 

 

        Baal desperta a inquietação mais profunda do ser humano com histórias insanas, com uma apresentação real e carnal, e que não afronta o público, levando-o a observações e reflexões do lado mais desejável que carregamos. A sensação a qual remete a peça é como se estivesse num local onde as pessoas antigamente se reuniam para ouvir histórias, pois somos conduzidos a uma aproximação natural com os atores e a peça. Uma mistura de misticismo com o lado mais sombrio do universo, assim, somos despertados pelas provocações desse espetáculo.

        Desde o momento que chegamos ao local do espetáculo somos conduzidos a uma aproximação do que será apresentado.  Posterior a venda dos ingressos, ao fazer o pagamento, retirar-se uma carta do tarô. Na minha vez, retirei o sol, não sei o significado, mas já busco no inconsciente algumas hipóteses do que deve representar aquele signo. A carta me dá acesso ao espetáculo.  Outro momento de aproximação é quando, o diretor – João de Ricardo – aproxima-se, só de calção, para nos receber e troca breves palavras com todos. Então se volta para dentro da casa e solta uma música, de máscara, o diretor, nos conduz ao inicio dessa contemplação de quase duas horas.

       Entramos no corredor da Ksa Terezinha, ali é o palco da introdução poética que se mistura com performance. Há caixas de papelão pelo caminho, pinturas, desenhos e formas pelas paredes e portas, no chão atores agonizando, gritando, cantando e declamando com os corpos pintados e nus. Passamos por eles e ficamos encostados nas paredes e ali somos recebidos com poemas, expressões e dança – o inicio do ritual.

        Os atores – Saimon Rodrigues, Gabriel Ignácio, Giorgia Fiorini e Reynaldo Neto – manifestavam ter o desejo de que as cenas, o texto, o jogo de cada história encenada, abordasse um sentido ético e moral, sobre nossas vidas, o modo carnal do homem viver, seus mitos e tabus, que fazem parte da nossa raça, das nossas crenças e da sociedade. A representação foi feita de forma insana sem esquecer da poesia que faz parte da obra.

         O oficio do ator é colocado de uma forma tão crua e deslumbrante, pela forma da condução do trabalho, tudo era expressão, o corpo, olhar, a voz, boca, o suor, o gosto, a língua. O espaço isolado, o próprio espaço e o do outro. Havia uma energia entre os atores, que não deixaram a cena esfriar nenhum minuto. Mesmo o nu estando na maior parte da cena, a concentração dos atores permitia o corpo ser visto como parte do cenário que compõe a arte desejada neste espetáculo.

        A plateia participava com entusiasmo desses momentos, a aproximação com os atores permitia sentirmos seus cheiros, seus figurinos esbarravam na gente, suas danças nos tocavam e seus olhares, estes ensaiados para que não fosse desviado a atenção em nenhum segundo do teatro. Os corpos se expressavam de uma forma, que alguns não conseguiram receber com tanta satisfação.  Outros estavam deleitados com toda harmonia diante dos seus olhos, que chamaram a minha atenção na admiração em estar presenciando Baal.

        Tudo é teatro para Ricardo que operava a mesa de som e luz, posicionando os focos manualmente, enquanto a cena acontecia e em outros momentos, entrava em cena e participava das ações. Os atores se debruçaram na proposta, a cada nova história, a personagem Baal era passada de um por um, como se encarnasse em outro corpo e neste, nova vida, voz e ação para o enredo o corpo falava de todas as maneiras, algumas aparentava ser vulgar, pela energia utilizada na representação, mas a intenção era de apresentar só o corpo se expressando.

        E para engrandecer mais ainda a cena a produção se amplia e a manipulação de objetos que passam despercebidos no nosso cotidiano, como sacos plásticos de colchão, papelão, luzes com papel celofane, boneca, máscaras e outros materiais utilizados nos possibilitaram exercitar a imaginação. A intenção de aproveitar todos os espaços da Ksa Terezinha, nos força a observar todos os cantos do local, e ver que um corredor, uma sala ou janela, podem servir de palco onde o ator explorar outras formas de expressão.

        Assim, nos levamos a abraçar cada história apresentada mesmo nos agradando ou não, sentíamos a tesão do grupo que estava em cena, o prazer de estar narrando aqueles contos para o público e abordando tantos temas, que na atualidade são tabus. Como observador percebo que o teatro atual pode ter várias maneiras de serem narrados e explorados e ouso afirmar que quando se tem uma base sólida e propósitos bem amarrados,conseguimos um resultado consistente, prazeroso e que pode agradar o público. Mesmo este público sendo contemporâneo a novas formas de expressão, provocações e colocações, pois, de alguma maneira vai despertar novos rumos e reflexões com o propósito de apresentar o ser humano, crenças e ideologias que lhe são naturalmente adquiridas.

 

 

 

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