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Das Tripas Sentimentos

October 17, 2018

 

O grupo Macarenando Dance Concept banhou-se na voz de Elis Regina. Essa irmensão é traduzida em performances cênicas que ilustram a voz, as músicas e os sentimentos da cantora. Sentado próximo a cena, sentia-me conduzido a abraçar “Das tripas Sentimento”, que trouxe suavidade para minha alma e iluminou meu olhar.

Escutar Elis Regina é saber que na sua voz irá encontrar aquele toque de verdade misturado com dor e emoção. Acredito que Elis sabia o poder que sua voz tinha, e com isso os bailarinos/atores buscaram respeitar essa essência. No espetáculo “Das Tripas Sentimentos” não via só um dialogo corporal que era conduzido pela letra da música, mas a criação de cenas performáticas que ilustravam as interpretações de Elis Regina.

Cada cena era uma faixa de Elis Regina, e essas pequenas ilustrações casavam de uma forma delicada com a trilha. Ambas chegavam até o publico provocando questionamentos pessoais, sociais e éticos. Não se via só exemplos lúdicos do cotidiano, mas estávamos diante de provocações profundas - da alma. Quase todos os momentos percebia-se aquelas vivencias solitárias, aqueles momentos de profunda reflexão e quietude. Todas transformadas em movimento, ação e performance, na voz de Elis Regina.

Outra coisa que percebi foi o vasto conhecimento da platéia em relação ao repertorio de Elis Regina. “Das Tripas Sentimentos” fez uma seleção de vários momentos da carreia da cantora e não priorizou só os seus grandes sucessos. A platéia entrava no ritmo das canções: alguns batiam os pés, ou a mão na perna, mas alguns, envolvidos com a cena e tocados pelas músicas e voz da cantora, juntavam-se à letra e cantavam baixinho, como se tentassem falar com Elis. Os olhos do público não desviavam de nenhum momento daquele espetáculo tão imerso nas profundezas de Elis Regina

O grupo Macarenando Dance Concept explorou cada canto do teatro: usaram o palco, os bastidores, a platéia, o outro extremo da sala, a parte de baixo do palco. Os assentos não estavam do modo tradicional – estávamos sentados nas laterais, assim tendo a visão dos dois extremos do teatro.

Não tem como esquecer da sensação de liberdade ao ver a performance de Maria Maria. O grupo, fez um semi circulo ao redor de uma das bailarinas, que usando um pedestal de microfone, apoiado na cintura, girava, girava, girava. Sorria aquela mulher livre, que parecia ganhar voo, querendo balançar uma bandeira que estava apoiando a sua cintura. Logo que o refrão acabava ela jogava no chão, respirava fundo e depois retornava a sua euforia sem fim.

Alo Alo Marciano fez Macarenando mostrar uma das suas identidades: explorar a letra da música e criar movimentos corporais para ilustrar as palavras dos versos. É incrível a diversidade de compreensão e gestos produzidos por cada um, ao passo que todos conseguem representar o mesmo significado. 

Em outra faixa, um dos bailarinos carregava um enorme colchão, jogava ele no chão e se atirava em cima, produzindo sons de alegria na platéia. Já em outro momento, os bambolês ganharam vida nos corpos dos bailarinos. Mais adiante, a maioria dos atores estava de olhos vendados, caminhando entre nós. Um espetáculo com cenas diversificadas, que produziam novas sensações e observações.

A hora mais esperada era a canção Como Nossos Pais. Como mágica, a cada nota que crescia na voz de Elis, um bailarino iniciava os movimentos. Um por um, iam despertando e dançando. Como estávamos perto, eles conseguiam olhar nos nossos olhos e permitiam ser levado pela música. Era como se seus olhos tocassem os nossos, e esse toque virava arrepio, que se misturava com a emoção da voz da cantora, que voltava a comandar os bailarinos.

O momento mais significativo foi quando no palco, um foco de luz ilumina o microfone que está em um pedestal. Os bailarinos/atores estão entre nós, todos observando aquele momento. O Bêbado e o Equilibrista preenche o teatro e, aos poucos, os bailarinos vão um a um subindo no palco e chegando junto a este microfone. Todos observam o poder da voz, o ato de cantar, a emoção, a letra, então... despedimos ali, pois “sabe que o show de todo artista tem de continuar”.

Após ver tudo isso, sinto que o grupo Macarenando, com zelo, escutou cada trilha, com seus olhos fechados e almas sedentas. Elis Regina não cantava só sucesso, ela era música. Não me espanta ver entre o público o reconhecimento de outras canções que não ganharam tanto destaque. A todas as faixas é dada a mesma importância pelos bailarinos/atores que não estão só apresentando uma coreografia, mas estão jogados a um sentimento profundo que se transformou em movimento, performance e cena. "Das Tripas Sentimento" faz jus ao seu nome ao transformar uma das mais belas vozes do Brasil em emoção, encanto e identidade.

 

Foto: https://www.facebook.com/macarenando/?ref=br_tf

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