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Lobo!

September 27, 2018

 

Lobo é intensidade que vai além da pele. Provar dessa experiência foi um dos melhores acontecimentos desses tempos, pois acabou mexendo com todos os meus sentidos, sensações, reflexões e observações. Quatorze homens e uma mulher, nus, mostram que a arte de atuar passa a barreira de um texto oral e vem carregada de expressões, propostas, estudos e performances a partir do corpo. Corpos estes que são usados como instrumentos de comunicação e reflexões, que chegam a ser provocativos demais, podendo nos levar à repulsa em momentos.Isto logo ganha destaque nas minhas observações, ao perceber que o corpo é matéria e templo pouco explorado pela consciência humana.

Inicialmente, fiquei apreensivo ao entrar no Teatro de Contêiner e me deparar com quatorze homens nus correndo no tablado, segurando uma garrafa de vidro. Quis admirar os corpos que estavam em cena, mas então me dei conta que vislumbrava a ação e reação de cada um – o modo que movimentavam-se pelo tablado, buscando preencher todos os espaços e cuidando para não trombar com o outro. Cada um carregava a garrafa de um uma maneira distinta, as respirações variam e os corpos respondiam de diversas forças à adrenalina. A correria permaneceu por um bom tempo, forçando os atores a parar e tomar fôlego, cada um no seu momento, pois seus corpos tinham atingido o limite e suas habilidades para desviar do outro já não respondiam como antes. De fôlego recuperado, eles voltavam a correr.

De repente todos pararam. Cada corpo com sua reação após essa movimentação. E foi neste momento que percebi a diversidade humana em cena: havia homens de alturas diversas, cores, alguns tinham pelos pelo corpo, barba, bigode, outros eram lisos, cabeludos, carecas, gordinhos, magros, variações de genética. De semelhante,havia respiração, cansaço e suor. Como uma dança, os rapazes vão explorando o seu corpo através do toque, alguns mais agressivos e outros nem tanto.O corpo ganha sons, movimentações, diálogo com o que está ao redor, e o tablado começa a impregnar do líquido que sai do corpo de cada um. E numa só energia, todos estão ao chão e, conduzidos pela luz, o toque corporal que era individual, agora se dá no grupo. Os corpos vão se aproximando, deslizando sobre o suor e o encontro deles se dá de uma forma tão delicada, que não chega a ser sexual.Estão uns sobre os outros, numa euforia corporal, deleitando-se num grande grupo de corpos que se perde na escuridão. Uma beleza aos olhos e o convite para o público abraçar esse espetáculo experimental e cheio de vigor.

Com essa intensidade, a peça Lobo vai ganhando sua forma,sem apelo sexual, mantendo quatorze homens cujo objetivo é dialogar com a plateia através dos seus atos. A oralidade fica por conta de Carolina Bianchi que entrar para completar essa missão tão bem desenvolvida. A atriz interage com os espectadores, troca olhares e fala diretamente ao público. Seus momentos cênicos trazem um equilíbrio tão sutil ao redor dos rapazes, que conseguem unir-se em cena e chegar mais perto da plateia.

No espetáculo Lobo,é possível encontrar uma experiência contemporânea que explora o teatro, dança, música, artes visuais e performances de diversas formatos. Um grupo que conseguiu manter-se conectado com uma proposta única de explorar o ator e suas ramificações,dessa forma trazendo como pano de fundo temáticas que se misturam com imagens, referências de fábulas de terror, natureza morta e outros.

Nesta proposta,há dois momentos significativos e marcantes: o primeiro é a cena desenvolvida sobre a beleza do amor. Retratam a ilusão desenvolvida pelo homem sobre um sentimento que muitas vezes toma uma proporção destrutível e o quanto somos induzidos a acreditar num misticismo em relação ao amor. Em outra cena – o momento em que tive de conter o estômago –, os atores passavam saliva, entre si, de boca em boca. Intenso! Inicialmente senti nojo, mas então pensei: a saliva é parte do corpo e também deve ser explorada em cena como objetivo de provocação.

Na noite do dia 17 de outubro, presenciei duas experiências distintas: ao meu lado direito havia um rapaz que se incomodava em alguns momentos de “exagero” na exploração corporal dos atores. Ao lado esquerdo, um outro rapaz que não tinha ideia do que se tratava a peça, mas achou impactante cada minuto – tanto que depois do espetáculo,conversamos sobre o que tínhamos acabado de assistir. Além disso, havia, naquela noite, pessoas diversas que estavam ali dispostos a experimentar aquele momento único – e todos permaneceram até o fim.

Cheia de significados, Lobo é o encaixe preciso entre direção, elenco e cena, mostrando a leveza de trazer o corpo como um instrumento de trabalho, sem seus tabus sociais, proporcionando uma contribuição incrível ao teatro brasileiro. Me ensinou a ver o corpo com mais amor e a perceber o quão simples ele é – talvez isso mostre que somos mais simples do que imaginamos.

Foto: Mayra Azzi

 

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