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Tudo é teatro!!!

September 12, 2018

 

 

Houve dois momentos, até hoje, onde os pelos da minha perna arrepiaram com uma cena de teatro. Uma dessas foi vendo Remontagem. A Cia Indeterminada, que apesar do pouco tempo existente, conseguiu enraizar sua identidade nessa peça, indicando como exploram a “encenação: já de início, os quatro atores perguntam se tudo é teatro, deixando a critério do público decidir ao final da apresentação.

No palco estavam vídeos, músicas, danças, performances e encenações que – desprendidas de uma verdade absoluta – eram, diante de nós, apresentadas com delicadeza. Remontagem está fragmentada em várias temáticas atemporais, que permeiam os caminhos do ser humano: sexualidade, política, vivências, ícones, relatos pessoais e outros enredos. Sem medo, elas são apresentadas nesse espetáculo com argumentos que abraçam o público de forma penetrante.

Há um zelo na peça que se dá em diversos momentos, mas lembro-me de alguns com maior apreço. Um deles é onde relembram alguns artistas mundialmente conhecidos, suas existências e suas mortes. Muitos desses ícones populares viviam às avessas, sem seguir padrões sociais. E toda vez que aparecia a fotografia deles no telão, os atores representavam um gesto, música ou fala que remetesse ao artista. Foi neste momento onde me arrepiei. Ouvi um acapella de Cazuza vindo dos pulmões daqueles atores, o que tocou-me de uma forma muito especial... não apenas por ser Cazuza, mas pela autenticidade e respeito que aquele elenco estava demonstrando com figuras tão importantes da nossa cultura.

Somos também embalados por fatos e relatos de outras pessoas, algumas anônimas, que também trouxeram suas contribuições para novas mudanças e reflexões. O modo que discutiam o sexo e sua sexualidade, a política e sua democracia e a opinião de massa era demasiado interessante, era envolvente .Pontos muito bem ilustrados por eles, cheios de argumentos.

Os atores invadem a platéia e bombardeiam falas que se misturam e não podemos distinguir cada uma – a não ser que você escolha escutar só um deles, e aí podemos mudar de opinião se não concordarmos, pois outro ator pode se aproximar de você num instante.

Com agilidade, tudo mudava e o humor vinha em forma de música, dança e performance que dialogavam com imagens e vídeos reproduzidos ao fundo. Apesar de mais “leves”, também conduziam nosso imaginário de forma densa, deixando um fundo de verdade à margem da reflexão.

Outro momento que ficou na memória, foi quando o ator Lauro Fagundes encena um texto sobre o amor. Diante da platéia, olhava no olho de cada um quando, de repente, repousou seu olhar no meu e ali recebio delicado texto. Esse exemplo é para mostrar o quão próximo essa peça está do ser humano e o quão intimista a arte pode ser.

Em outro momento da peça, o ator André Varela relata um fato, que acredito ser verídico e pessoal, contando que na sua infância e juventude guardava em uma caixa suas coisas especiais. O mesmo vou fazer em relação a esta produção, com direção de Ander Belotto e seu tato peculiar para criar.

Tenho certeza que na noite do dia 7 de Setembro, o público que se encontrava na sala Álvaro Moreyra saiu tocado – comprovado pelos aplausos finais calorosos para a Cia Indeterminada.

Belotto irá se destacar nos palcos brasileiros, e assim desejo que, apesar dos contratempos da vida, ele possa manter a paixão pelo teatro e continuar com a mesma essência em suas criações.

Diante de tudo isso, entendo que a Cia Indeterminada está preocupada em fazer teatro, pois percebe-se que atores e direção estão experimentando, aprendendo e evoluindo de uma forma sadia e orgânica no teatro. O mais belo é que estão no seu tempo, no seu processo e na sua construção. O palco é sagrado e ao mesmo tempo um lugar humilde, que permite receber todas as formas de teatro possíveis. Foi neste território que a Cia Indeterminada resolveu desenvolver suas experiências e nós quem saímos ganhando com tamanha ousadia.

 

Foto: Instagram/ @cia.indeterminada

 

 

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