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Baixa Terapia

August 29, 2018

 

 

Atualmente, quando quero “perder” tempo, fico vendo stories. E foi nesses vídeos de quinze segundos que me deparei com um relato de Bruno Fagundes, agradecendo os comentários das pessoas após a publicação de uma entrevista dada pelo ator sobre a dificuldade do meio artístico. Foi neste momento em que troquei algumas palavras com Bruno e descobri que a peça Baixa Terapia chegaria em breve a Porto Alegre.

Sigo inúmeros novos atores do Brasil todo e acompanho diversos trabalhos, mesmo de longe, e estou admirado ao perceber que temos boas referências surgindo e que devem ganhar grandes destaques. Acredito que muitos desses novos artistas só estão nos palcos brasileiros, que já é um excelente presente para o teatro nacional, merecedor esse cuidado.

Nunca havia visto Bruno Fagundes em cena. Já acompanhava alguns trabalhos do ator e de seu pai. Logo que os ingressos começaram a ser vendidos, comprei o meu. No dia da peça, estava ansioso para ver pai e filho em cena e poder admirar o trabalho de um jovem ator que estava acompanhando fazia algum tempo. Cedo estava no Theatro São Pedro e tomei meu lugar na plateia.

Baixa Terapia trata de um encontro de três casais que irão fazer uma sessão de terapia em grupo. A terapeuta não se encontra no recinto, mas deixou envelopes com temas, perguntas e provocações, que devem ser lidos por eles e discutidos por todos. Após todos participarem, devem ser trocados os envelopes. E foi dessa forma que se trazem temáticas sociais fortes, que certamente já devem ter sido vivenciadas pelo público.

Demorou para conectar-me com o enredo abordado. Inicialmente, achei um roteiro simples, mas de repente notei em meio às risadas que pequenas surpresas e espantos eram vivenciados por mim. Foi então que percebi que o texto conseguia camuflar temáticas mais profundas da sociedade com uma leveza que não era facilmente perceptível pelo público. Reparei também que ao meu lado direito havia três senhoras que demoravam para gargalhar, mas estavam sempre trocando algumas palavras entre os assuntos dialogados em cena.   

            O roteiro havia ganhado o seu destaque, mas o jogo cênico tinha despertado minha atenção desde o inicio do espetáculo. Os seis atores que estavam em cena conseguiram criar uma dinâmica bem estruturada e lapidada,como se estivessem jogando uma bola um para o outro, assim conseguindo utilizar todo o espaço demarcado.

            Antônio Fagundes surpreendeu-me com sua presença em palco e a energia que conduzia sua personagem e a mantinha viva em cena. Bruno Fagundes mostra que está no mesmo caminho crescente em cena e que vem a  se tornar um ator teatral renomeado nos próximos anos. Ilana Karpan rouba a cena por usar a expressão como sua forma de comunicação com o público – sua personagem não deve ter trinta falas no decorrer da peça, mas ela ganha um destaque único em todo espetáculo.

            Foi ao final, quando o último foco foi desligado, que percebi a delicadeza do texto e do espetáculo que presenciei. A escolha dessa peça se torna especial após perceber todo o cuidado em sua produção e direção. A platéia não está “preparada” diretamente para a revelação final do enredo. Mas ao parar e recapitular as outras cenas, percebe-se que sempre havia risadas e momentos de segurar a respiração quando alguma personagem revelava um problema.

            E foi nesta noite que tive a oportunidade de apreciar essa peça e poder aplaudir de pé um jovem ator que, apesar de ser filho de Antônio Fagundes, tem suas inquietações a respeito da sua profissão. Acredito que a troca entre platéia e artista faz a diferença e os move para nunca desistirem do seu ofício, mesmo que este talvez não ganhe o reconhecimento devido no nosso pais, familiares e amigos. Mas ainda assim, é uma das únicas formas que consegue tocar na alma de pessoas que saem transformadas do teatro.

Foto: https://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/uma-conversa-com-fagundes-o-ator-romantico-que-arrasa-no-humor/

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