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Ética da perfeição

August 8, 2018

 

Em Fisiologia do Desespero, a encenadora Eva Schul nos apresenta uma observação do corpo quando levado a seus extremos psicológicos e expressivos. Somos colocados diante de uma crítica estética e cultural da busca da perfeição segundo os modelos machistas. Essa perseguição não se limita ao comportamento - se estende ao nosso corpo, nos faz transpirar formas agressiva em busca de robustez e de consistência tais que nos permitam  enfrentar todos os obstáculos. No caso da mulher, a “cultura” impõe a busca do físico sensual e intato, carregado da beleza imposta pelo homem. Só que a mesma exigência reflete no corpo do homem, que deve ser escultural e desejado para que produza comentários, curtidas e compartilhamentos.

 

No palco do Instituto Ling, entretanto, Eva denuncia essa busca mas também apresenta o corpo como lugar de experimento e de movimento de descoberta. Carla Vendramin,. Renata de Lélis e Viviana Lencina, com excelência de gestos e de expressão, representam/apresentam o limite de seus corpos, numa atmosfera provocativa que deixa o espectador apreensivo ao observar os resultados corporais.

 

Ao longo de 50 minutos de espetáculo, os corpos das bailarinas recebem vários elementos. O figurino fundamental é de lingeries e bondages para jogos sexuais (que podem e devem ser entendidos como arreios de cavalos). O Em algumas cenas, vestem casacos de pele para se afetarem de uma sensualidade forçada e artificial, outras vezes usam amarras na boca (freios para cavalo) e usam máscaras de cabeças de cavalo e de unicórnio. Estes últimos adereços despertam curiosidade, pois foram destacados no material de divulgação e são pouco explorados em cena. Mas a rigidez, o potencial, a força, a elegância e o limite dos equinos é claramente uma inspiração das coreografias. 

 

A época atual aproxima-se do turfe na busca dos melhores para que se obtenha um melhor resultado na competição. Quase como um exibicionismo da força e inteligência do animal, que sofre para superar seus limites em busca da vitória, não importando os sacrifícios físicos ou éticos. Schul nos faz presenciar um extremo corporal das bailarinas, e expõe o desdém com que encaramos esse sacrifício. A perfeição que nos é exigida interfere com o fisiológico e o psicológico da humanidade a ponto de distorcer nossa ética, moldando-nos nesta proposta.

 

É deprimente perceber a postura do ser humano que não aceita a sua fisiologia natural e que não percebe beleza na diversidade humana. Nossa carência é tal que chega a respingar no corpo, na força e na integridade. No final, pode ser que até se atinja a grande conquista, mas pergunto: com qual finalidade? Se for que nem a do cavalo, sinto que ele só queria ser livre.     

 

Foto: https://www.facebook.com/InstitutoLing/

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