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Amor sem Temer

 

 

 

“- Precisamos falar do seu irmão.

- Porra!

- Precisamos falar do seu irmão!

Já sabia do que se tratava. Pois havia encontrado embaixo da cama do meu irmão, os cadernos. Li os poemas e vi os desenhos de homens que ele fazia.

- Precisamos falar do seu irmão.

Coloquei minhas mãos na boca dele e forcei, senti seu sangue escorrer pelas minhas mãos. Rasgue. Abrir. Separei. Arregacei. Repartir a boca toda dele, em dois pedaços”

 

Estremeço dos pés a cabeça. Ouvir Fracis (Gustavo Vaz), relatar ao ex namorado do seu irmão - Tom (Armando Babaioff), qual essa foi sua atitude no dia que encarou a sexualidade do próprio irmão. Fez-me recordar certo rapaz que conheci. O garoto que cruzou meu caminho e encenava uma personagem infantilizada diante de sua família, para não abordar sua sexualidade. A família sabia, mas tinha vergonha de ter um filho homossexual, e afirmou ao garoto que nenhum familiar deveria ter conhecimento dos fatos. Rezo por esse menino todos os dias, e agora, também por Tom.

Imagino a tristeza, dor e angústia que Tom carregava, tendo que esconder de Dona Agatha, mãe de seu namorado,  a verdade sobre seu filho e o amor que existia entre eles. Se Tom conhecesse, o meu amigo poderia abraçá-lo e compartilhar esse peso que carregava. Mas isso não teria sucesso. Pois Tom era corajoso. Já meu amigo ainda necessitava enfrentar seus medos e a realidade antes de se permitir a amar.

O enredo se dá nessa circunstância que Tom não consegue compreender como a mãe de seu namorado não sabe nada sobre o filho. Mas a intensidade da história só piora com a chegada de Francis, o irmão, que Tom nem sabia da sua existência. Francis ao se deparar com o Publicitário Tom, compreende que ele é o namorado do irmão falecido. Agatha não se contém de felicidade e pede para Tom falar algumas palavras no velório do filho, para que todos saibam que ele tinha amigos. Quando Francis consegue ter seu primeiro momento a só com Tom, logo parte para agressão, um soco é dado com toda a força, no estômago do rapaz. Francis machucando o rapaz está querendo satisfação da presença dele na fazenda da família. É visível que pelo tom de voz e o ódio impregnado em Francis, ele não gostava da presença de Tom em sua casa, se pudesse matava o rapaz, ali, na frente de todos. O irmão agressor não quer conversa com Tom, mas obriga o rapaz a entrar numa mentira que seria dizer a sua mãe que seu irmão tinha uma namorada chamada Sarah, que falava inglês e não pode vir.

A mentira é a sombra que acompanha a família de Dona Agatha, Tom acaba se envolvendo nessa mentira de uma forma tão intensa que você percebe no andamento da história que ele acaba se sujando de uma forma que o deixou irreconhecível. Percebe-se que Tom chega com as roupas limpas e bem cuidadas no andar da história e com o envolvimento da mentira, Tom acaba rolando no cenário e se misturando com aquela terra, lama e sujeira. Ele tenta se limpar, mas não consegue, pois cada movimento e atitude, o leva sempre para novos combates que o obrigam a estar misturado nessa mentira. Francis e Tom acabam criando um vínculo que é baseado em grandes discussões, brigas, agressões e abusos. Mas mesmo nessa situação, Francis que além de durão e agressor, acaba aos poucos revelando seus segredos e sentimentos a Tom, que escuta e tenta dialogar, mas parece que toda vez que a intimidade entre eles pode se aprofundar, Francis lembra que precisa estar no controle, assim fazendo absurdo com Tom.

Tom para entender de fato o que se passa com aquela família e também ficar mais um tempo perto do seu amigo, aceita e se submete a todos as agressões de Francis, que o elogia, dizendo que Tom é durão. Só que neste envolvimento, de dor, mentiras e abusos, Tom que acaba gostando de Agatha, faz uma amiga sua da agência vir até a fazendo e se passar por Sarah. Assim dessa forma Tom, que agora está em ‘família”, descobre a pior das farsas que seu amado guardou até o último minuto.

Armando Babaioff (Tom), descobrir esse texto após uma conversa com um amigo, sobre um filme chamado Tom na Fazenda. Babaioff procura o texto e o encontra em inglês, o traduz e manda para Rodrigo Portella, que aceita o desafio de dirigir o espetáculo. Juntos com Gustavo Vaz (Francis), Kelzy Ecard (Agatha), Camila Nhary (Sarah), e a produção, vem colecionando indicações em vários prêmios do teatro e arrecadando algumas conquistas.

Está é uma peça intensa a ponto de vermos em cena absurdos e agressões físicas que lembram terrorismos. Calados ficamos por quase duas horas sentados olhando Francis com ódio e sangue frio, bater e torturar Tom de todas as formas possíveis. O pior não é que cenas assim acontecem diariamente ao nosso redor, com homens e mulheres, são ameaçados psicologicamente e fisicamente pelo fato da sua opção sexual, ou melhor, por amar. E assim as pessoas acabam se sujeitando a viver escondidas e com medo de enfrentar seus próprios sentimentos e assim não podendo ser livres. Até quando iremos aceitar calados essa situações? Por que aplaudir de pé uma história assim e não lutar pela realidade que acontece diariamente ao meu redor?

Talvez a hipocrisia ainda viva fortemente nas pessoas, o medo ainda está enraizado em nossos corações e o respeito nunca vai existir, pois para respeitar devemos aceitar que o outro é mais forte do que a gente a ponto de enfrentar os medos para viver livre e feliz. E damos ouvidos ao ego, que sempre quer se engrandecer e destacar-se de uma forma soberba a ponto de esquecer a humildade e da simplicidade que é a vida. Assim tornando o ato de amor tão ‘certinho’, como foi ensinado, que não se podem ter outras formas de amar. Triste perceber o quanto temos a possibilidade de ver, sentir e vivenciar múltiplas coisas nesta passagem pela terra, mas ainda somos rasos.

O homem está num conflito pessoal, para poder aceitar essas formas de amar deve primeiro enfrentar-se a si mesmo, para depois ver a clareza e as formas de amar.

 

Foto: http://botequimcultural.com.br/critica-tom-na-fazenda/

 

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