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Memórias sonoras

June 27, 2018

 

 

 

Acolhido! Esta foi a sensação provocada em mim pelo elenco de Abobrinhas Recheadas: Rei Roberto quando adentrei o Teatro do Instituto Ling. O público ainda tomava seus lugares, e o elenco, um a um, assumia o centro do palco e soltava a voz cantando pequenos trechos de músicas que lhes vinham à memória. As intervenções eram acompanhadas pelo público - alguns sabiam a letra, outros a melodia, outros só contribuíam com um leve sorriso. Aquela recepção já aproximava os espectadores da proposta que viria.

Senti-me com 12 anos, tempo em que um circo acampou ao lado da nossa chácara em Vila Seca (20 km de Caxias do Sul), e eu ia todas as noites presenciar a função. Fazia muito tempo que não revivia aquela euforia, mas o Macarenando Dance Concept conseguiu isso na noite de 9 de junho. De dentro do estômago, vinha aquela gargalhada escondida que saía faceira para completar a cena diante de mim.

Os diretores Diego Mac e Gui Malgarizi, juntamente com seu elenco, souberam explorar cada ramificação de Roberto Carlos, indo desde a jovem guarda, passando pelo romantismo e pelo brega do Rei.  A trilha edita recortes de músicas do cantor sem intervalos entre eles. Ao todo, foram selecionados mais de 50 trechos - algumas canções são tocadas inteiras, outras apenas por segundos.

Os bailarinos coreografam os versos com muitas caras e bocas e sentimento, com domínio corporal impecável. As leituras se multiplicam em algumas cenas, pois cada bailarino/ator coreografa o mesmo verso ou passagem de maneira diferente dos demais. Afinal, não é o que ocorre na nossa vida cotidiana, quando registramos e lembramos fatos e emoções muitas vezes de diferentes maneiras? A criatividade para ilustrar com movimento e muito humor as letras do Rei é digna de muitos aplausos, e às vezes vai além do que Roberto canta. Um exemplo é a coreografia do verso “Todo mundo olhou me condenando”, de Splish Splash. A imagem para condenação é feita de punhos cerrados e levantados e a cabeça baixa, ilustrando a repreensão social ao que aconteceu no escurinho do cinema (dois namoradinhos se beijando...). Mas a ação ganha impacto porque se dá no contexto de uma música ingênua, provocando reflexão e indo além do que está na letra.

O apelo emocional do espetáculo de 60 minutos é facilitado pela dimensão do teatro (89 lugares), que favorece o contato olho no olho entre elenco e plateia. O diretor Diego Mac sabe disso, e no inicio da sessão já avisa que podemos soltar a voz e cantar junto. A emoção provocada nesta noite pelo Macarenando Dance Concept foi tanta que no final, ao som de Força Estranha, uma senhora sentada ao meu lado deu-me a mão durante a canção. Em poucos minutos, ela foi tomada por mais emoção e levantou-se para se juntar ao coro formado pelo elenco e por outros espectadores. Lágrimas também estavam presentes em alguns momentos - muitas pessoas ao meu lado foram arrebatadas pelas memórias que a voz de Roberto e o espetáculo do Macarenando lhes provocavam.

Além de estar ainda em sintonia com o espetáculo, não consigo mais escutar as músicas de Roberto Carlos sem um novo olhar. O Macarenando fez jus a um dos versos mais famosos do rei: o importante é que emoções eu senti.

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