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Avalanche na Casa de Bonecas

 

 

 

Faltavam vinte minutos para a peça terminar. Raramente confiro a hora no meio do espetáculo, mas no dia 18 de maio, ao ver Inimigos da Casa de Bonecas, não resisti. No assento, sentia que o corpo inclinava para frente, tentando aproximar-me da peça, mas logo recuava e compreendia que a cada momento me distanciava da narrativa.

Inimigos na Casa de Bonecas, direção de Camila Bauer, traz desde o inicio uma produção carregada de recursos visuais e sonoros, apresentando ao público muitas informações. Essa abordagem acaba sobressaindo outras sensações no público, dificultando o acesso à história.

Nora é a protagonista da peça Uma Casa de Bonecas (1879), de Henrik Ibsen. Esposa e mãe que vai até seu limite para dar conta do papel de mulher e educadora dos seus filhos. A relação de Nora com seu marido é harmônica, apesar de ele ter seus meios para burlar algumas questões. Só que Nora se vê em apuros quando é questionada sobre uma atitude que tomou para ajudar o seu esposo, sem o conhecimento dele.

A diretora Bauer agrega elementos de outra obra de Ibsen, Um Inimigo do Povo (1882), que dialogam com a história de Nora. A temática dessa segunda peça traz um olhar político e ético em relação ao homem, o poder e a sociedade. Só que não para por aí: a encenadora e o elenco introduzem no texto alguns depoimentos pessoais e relatos de outros, que partiram de um questionário na internet, desenvolvido por eles.

Bauer também acrescenta algumas citações de estatísticas sobre a violência contra a mulher, racismo, valorização do meio ambiente, entre outros. Mas que não se alinham diretamente ao enredo, dificultando a compreensão da sua proposta. Tudo isso é apresentado numa avalanche de imagens, vídeos, sons e redes sociais que chegaram a tirar ao fôlego de tanta informação. Sentia que estava vivenciando as mesmas provocações que aconteciam no dia a dia. Pois abrir um site na internet é o mesmo que se deparar com um carnaval de propagandas, notícias e anúncios gritantes que desviam a atenção. Sem contar o que se passa na televisão e pelo celular.

Só que, na manhã do dia 19 de maio, participei de um debate sobre a criação do espetáculo, em que estavam presentes Camila Bauer e alguns atores do seu elenco. Essa conversa aconteceu na Escola de Espectadores de Porto Alegre (EEPA). A diretora deixou claro que havia a intenção de estabelecer esse distanciamento do público e de propor ramificações fora do drama familiar de Nora, aí incluídos problemas de gênero e etnia. E compreendi que o projeto construído por ela e seu elenco foi bem-sucedido quanto a suas intenções.

Questiono, entretanto, se um espetáculo com tantas informações e recursos tem êxito? Essas colocações chegam de fato a transformar o olhar do espectador? Será que colocar em cena esse dilúvio é uma denúncia? Essas abordagens trazem reflexões à sociedade? Conferir á hora em meio à apresentação mostra que uma encenação com excesso de focos de atenção corre o risco de dispersar – e não conscientizar - o espectador. O teatro contemporâneo tem o dever de experimentar novas formas de comunicar-se. Já o público, de receber essas novas leituras. Como no encontro de duas vias que fluem juntas, mesmo que nem sempre na mesma direção.

 

Créditos da foto: Adriana Marchiori / retirada do facebook do Projeto Gompa

 

Critica publicada no site: https://www.dropbox.com/sh/6iyehzv9xhcbkdk/AABcpMk_KV7lqTqg9RQdCy2sa?dl=0&preview=Textos_final.pdf

 

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