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Fôlego de Shakespeare

 

Durante o 13º Festival Palco Giratório, a Armazém Companhia de Teatro (RJ) trouxe aos palcos gaúchos sua construção de Hamlet, e me evocou o poder que Shakespeare carrega. Mas se alguém buscou encontrar o fôlego de Shakespeare na montagem da Armazém, na noite do dia 9 de Maio, no Teatro Renascença, se deparou com uma surpresa: a falta de fôlego.

Hamlet, com direção de Paulo de Moraes, foi apresentado a partir do ponto de vista da loucura. “É importante! Se daqui para frente me comportar com um louco, parecer insano, tudo que eu disser não se assemelha comigo. Prometa que quando me encontrar não vai dizer nada, se tiver qualquer desconfiança comigo. Guarda esse segredo”, enfatiza Hamlet a um amigo após ter um encontro com o espírito do seu pai morto.

O enredo da loucura se dá em todos os sentidos da encenação, incluindo uma mistura de linguagem que respinga na construção cênica, textual e corporal. O fato de misturar tantas informações e de tentar dar ênfase à capacidade de exploração e criação da atriz e do grupo, entretanto, acaba por distanciar o público.

A peça é magnífica quando se trata de ter um grande cenário e lançar mão de recursos digitais notáveis, reproduzindo numa grande parede de vidro o espírito do rei morto. Esse expediente, embora impressionante na medida em que reforça o impacto de uma aparição sobrenatural, não estabelece maior relação com o público e com o próprio texto. O que me espantou foi perceber que não se escutava a voz de alguns atores, dificultando a compreensão das falas e afastando o público de um dos textos mais célebres do teatro. Lembrando que a Armazém Companhia de Teatro está há mais de 30 anos levando suas produções com sucesso pelo Brasil, como Aniversário da vida, aniversário da morte (1987), A Ratoeira e o Gato (1993), A Tempestade (1994), entre outras.

Em Hamlet, escrito entre 1599 e 1601, Shakespeare aborda temas ainda atuais, mas que acabaram omitidos pela Armazém. Hamlet pode receber muitas leituras e criações, mas não se deve perder a essência do jovem com sede de justiça que enfrenta seus próprios questionamentos.

A insanidade está presente no nosso dia a dia, quando nos deparamos com uma população acomodada e apenas observando em silêncio o devaneio dos políticos. Quem conhece o enredo de Hamlet percebe a energia do príncipe da Dinamarca ao questionar a ética e a índole do ser humano. A ambição de estar no poder faz com que alguns se disponham a atitudes que até Deus duvida. Mas a doce “vingança” de Hamlet também mexe nas profundezas guardadas dentro de cada um. Percebe-se o fôlego de Shakespeare tentando chamar a atenção do público, querendo estremecer nosso ponto de vista em relação ao outro e suas atitudes, indagando se alguns comportamentos são naturais ou éticos. Questões relevantes principalmente no sistema político brasileiro.

E não podemos esquecer o fato de a Armazém Companhia de Teatro dar o papel principal para uma mulher. Essa decisão deveria ser a cereja do bolo do grupo, que se esqueceu de lapidar esta abordagem, sem deixar mais explícitas a provocação e a reflexão que orientaram a escolha.

Quem observasse com cuidado a plateia do Renascença do dia 9 de maio perceberia que os espectadores queriam mais e mais do que estavam presenciando. Mesmo aqueles se abanando com o programa que haviam recebido ao entrar, talvez na tentativa de encontrar o fôlego presente nas obras de William Shakespeare para transformá-lo em voz, grito, atenção e

ação no Hamlet que estava em cena.

 

#teatro #crítica #shakespeare #palco #olhar #encenação #atuação #papel #atriz #ator #drama

 

*Esta crítica se encontra disponível também no site: https://www.sesc-rs.com.br/noticias/oficina-olhares-da-cena-resulta-em-criticas-teatrais/

 

 (Crédito da foto: https://i.ytimg.com/vi/eB79VWvrhrc/maxresdefault.jpg)

 

 

 

 

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